17 abril 2007

Bagdad Café

Bagdad Café (Out of Rosenheim, 87)

O que mais me extasiou no filme foi a atmosfera. Percy Adlon cria um ambiente sufocante e desprezível, um típico subúrbio hostil. Em contraponto, e como um presságio, há as deliciosas músicas alegres tocadas no piano. É um jogo magnético, é como uma injeção intravenosa. Há uma riqueza de detalhes incrível em como Bagdad Café é criado, os elementos carregam enorme significado, maiores inclusive que as atitudes. Exemplo disso é a garrafa térmica, um objeto extremamente simbólico, que faz fluir a história.

A chegada de Jasmin é vital, não apenas para a transformação das personagens, mas para a própria explosão sinergética dos diferentes mundos e conflitos. Jasmin é uma mulher sobria, de caráter rígido, que, pela sua própria essência conservada, causa um grande mal-estar na pousada/café. A proprietária, Brenda, mulher rancorosa, reclama de ter de fazer tudo, sendo que não há muito o que fazer. O choque vem disso. Jasmin se mostra aberta a qualquer tipo de relacionamento, ela só quer se bastar. Os outros apreciam isso, oq ue causa um furor interior em Brenda.

Vejo a aridez do local como uma projeção para a aspereza do relacionamento Jasmin/Brenda. Brenda, como Bagdad Café, é inóspita, não permite que ninguém exista, sufoca. Mas há vidas que querem permanecer, vemos assim o pintor frustrado que enxerga na alemã uma beleza única, o garoto que sonha em ser pianista e que é por ela apenas entendido... Contorna-se assim o sentimento de solidão. Insistem muito na metáfora da mágica, mas vejo essa dualidade do cenário muito mais representativa. Justamente porque o mundo mostrado é de incógnitas e de incoerências, assim como a prórpia cerne do local.

Outro aspecto que vale ressaltar é a canção Calling You, de Jevetta Steele. Tema do filme, ela perpassa, pela sua melodia inebriante, por toda história num vôo lúdico. Acompanha o mundo angustiante que é tal estrada. É a representação onírica da viagem a pé pela estrada desertas.

Bagdad Café é certamente uma obra do tempo gasto.

Desert road from Vegas to nowhere
Someplace better than where you've been
A coffee machine that needs some fixing
In a little cafe just around the bend.

I am calling you
Can't you hear me
I am calling you.

Hot dry wind blows right through me
Baby's crying and I can't sleep
But we both know a change is coming
It's coming closer
Sweet release.

I am calling you
I know you hear me
I am calling you

I am calling you
I know you hear me
I am calling you

Desert road from Vegas to nowhere
Someplace better than where you've been
A coffee machine that needs some fixing
In a little cafe just around the bend
Hot dry wind blows right through me
Baby's crying and I can't sleep
And I can feel a change is coming
coming closer Sweet release.

I am calling you
Can't you hear me
I am calling you.

Nota: 7,5

PS.: Já está no ar a Zingu! # 7.

Dossiê Carlos Imperial; Nunexploitation; Zezé Motta; Velvet Undergound; Rip Kirby; Fritz Lang; Buster Keaton; palavras sujas à Gwyneth Paltrow...

10 abril 2007

Sessão Pablo Neruda

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

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"Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono."

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"Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza."

01 abril 2007

Filmes vistos em Março (2007)

legenda: revistos; curtas

  1. Notas Sobre um Escândalo (Notes on a Scandal, 06) 7,5
  2. Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, 87) 8
  3. Letra e Música (Music and Lyrics, 07) 6,5
  4. A Estrada da Vida (La Strada, 54) 8
  5. Antônia (Idem, 06) 5
  6. Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 07) 3
  7. O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose, 05) 7,5
  8. A Pele (Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus, 06) 5
  9. O Virgem de 40 Anos (The 40 Year Old Virgin, 05) 6,5
  10. Morte em Veneza (Morte a Venezia, 71) 10
  11. O Guru e os Guris (Idem, 77) 9,5
  12. Cão sem Dono (Idem, 07) 6
  13. Hollywoodland- Nos Bastidores da Fama (Hollywoodland, 06) 5,5
  14. A Morte Cansada (Der Müde Tod, 21) 8
  15. O Número 23 (The Number 23, 07) 6
  16. Scoop – O Grande Furo (Scoop, 06) 7,5
  17. Os 12 Trabalhos (Idem, 06) 6
  18. A Nós a Liberdade (À nous la liberté, 31) 6
  19. O Bom Pastor (The Good Sheperd, 06) 8,5
  20. A Ostra e o Vento (Idem, 97) 7,5
  21. Maria Antonieta (Marie Antoinette, 06) 5
  22. O Show de Truman - O Show da Vida (The Truman Show, 99) 9,5

Comentários: Tão Longe, Tão Perto me é tão melhor que Asas do Desejo, entediei-me tanto neste; Motoqueiro Fantasma é divertido de se assistir, mas é deveras ruim - dá até vergonha ver alguém como Nicholas Cage fazendo isso; O Guru e os Guris é genial, todos deveriam assistir, é hilário; O Número 23 não é tão ruim quanto dizem, tem apenas um final horrendo; Scoop é bem engraçado, e Scarlett é tudo, não?; O Bom Pastor é fenomenal, quase três horas que não se percebem; Continuo achando os filmes de Sofia Coppola vazios e suferciais, Maria Antonieta é mais um exemplo.

Melhores:

  1. Morte em Veneza
  2. O Guru e os Guris
  3. O Show de Truman - O Show da Vida
  4. O Bom Pastor
  5. A Morte Cansada

Piores:

  1. Motoqueiro Fantasma
  2. Maria Antonieta
  3. Antônia
  4. A Pele