23 julho 2006

O Estranho Caminho de Santiago

O Estranho Caminho de Santiago (La Voie Lactée, 69)

Na última quarta, assisti a mais um exemplar do cinema de Buñuel. Conferi O Estranho Caminho de Santiago, na Cinemateca - creio não ter cópias em vídeo -, uma crítica ferrenha à instituição Igreja, um dos grandes símbolos de sua terra natal. Buñuel, em 1969, já estava mais que consagrado. Sua última fase, por assim dizer, a segunda francesa, é, talvez, a melhor. Usando um surrealismo marcante em suas obras de maneira recortada, com o objetivo de confrontar o velho e o novo, o real e o irreal, diferentes dimensões, e planos alternados que remetem a diferentes mundos enxertos numa única realidade. E isso é o que faz de melhor. Sua vantagem é ser verossímel dentro de toda sua exacerbação e fantasia. Pessoas aparecem e desaparecem do nada, a crendice popular incrustada nas almas abismadas e religiosas.

O filme se incicia com dois homens maltrapilhos perambulando pela França. Pedem dinheiro a um padre. Este recompensa apenas o que já possuía alguns trocados. Então, diz ao que nada tem que deve engravidar uma prostituta. Depois, encontram um menino cheio de chagas que pára um carro. Eles entram no carro, o menino segue seu curso. Num momento, um dos homens começa a agradecer o conforto e sorte, evocando "Por Deus! Por Deus!". Nisso, o religioso motorista os expulsa do carro e eles têm de andar. A partir daí, uma jornada a pé é reiniciada a Santiago de Compostela, na Espanha. Encontrarão diversas pessoas, histórias paralelas cruzarão as deles, formando uma rede, cujo objetivo é desmantelar os dogmas da religião reafirmando-os. Sim, pois a ironia sutil prevalece e o tom profético torna-se um subalterno quando confrontado de frente todo o ilogismo religioso. Buñuel utiliza-se disso para construir um filme teoricamente tão ilógico quanto a própria Igreja e seus dogmas.

Buñuel é um cineasta muito peculiar. Seus filmes tendem a contar histórias audaciosas, incomuns, às vezes melodramáticas, mas um quê de comédia sempre está presente. É uma mordacidade tremenda, é como não se tivesse um objetivo propriamente dito, mas dentro de toda sua inovação, sua ingenuidade, ou mesmo subverção, há um rebuscamento impressionante. É incrível como ele consegue ser brilhante e fazer-se entender.

Mesmo com a horrível cópia da Cinemateca, vislumbra-se toda qualidade técnica do filme. O jogo de cores e luz com todo contraste temático o transforma quase numa obra barroca por excelência. Mas um barroco influenciado pela modernidade, um futurismo. Alternando entre paisagens verdejantes e quartos lúgubres, utilizam quase sempre meia tela clara e meia escura - como na fugura acima - e mostram um Cristo dividido entre o céu e a terra. O Cristo mostrado é franciscano, ele ri. E é dotado de uma bondade perversa, não quer ser lembrado pelos seus atos, pois isso é "errado" e ele seria obrigado a suportar um fardo, que acabou existindo: o fardo da salvação.

O Estranho Caminho de Santiago não chega a ser tão polêmico quanto tantas outras obras sobre Cristo, mas seu propósito não é esse. Não é algo tão explícito e vulnerável. Foge mesmo de uma possível discussão acerca da alma do filho de Nazaré, ele contempla a irrealidade e ilogismo dos dogmas, e isso já é suficiente. Afinal, o que se poderia esperar de um sujeito que clamava: "Sou ateu, graças a Deus!"

Nota: 94/100

Escutando: Beauty and the Beast - Alan Menken
Lendo: ainda A Cidade e as Serras

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