21 maio 2006

Grandes Esperanças

Grandes Esperanças (Great Expectations, 1946)


A NBO Editora resolveu lançar em DVD diversos clássicos por 10 reais, entre eles boa parte dos filmes britânicos de David Lean. E a ela agradeço muitíssimo. Exatamente porque ela me deu a chance de conhecer um pouco mais a carreira deste brilhante diretor. Sei que é leviandade dizê-lo só tendo visto 5 filmes do sujeito - esse, Desencanto, A Ponte do Rio Kwai, Lawrence da Arábia e Dr. Jivago -, mas todos são excelentes, todos ganham 5 estrelas, e mesmo que veja alguma diferença entre eles quanto a conceituação, há uma mente por trás de tudo e todos eles possuem algo em comum. Portanto, reafirmo que David Lean é um cara brilhante. Só conseguir dinheiro que comprarei os que faltam.

A grandiosidade da obra fílmica, baseada na obra de Charles Dickens, está na veracidade trepidante das cenas. Aparenta sim uma Inglaterra do século XIX típica de filmes do chamado cinema clássico, e talvez por isso eu acredite tanto na sua decupagem. O cinema clássico de John Ford, Frank Capra e William Wyler é um de meus preferidos. David Lean encontra-se facilmente nessa estética grandiosa, antes de seus filmes serem grandiosos - brilhantes, mas não grandiosos. Vocês entenderam o que quis dizer? -, mas de incríuvel poder de persuasão e carisma. O cinema americano transformou-o. Tanto que a efervescência para épicos e filmes monumentais tomou conta de sua filmografia, filmes como Lawrence da Arábia e Dr. Jivago não são só longos, são o retrato do americanismo, seu poder de marketing - hoje cada dia mais forte.

Na Grã-Bretanha, David Lean filmou acasos, principalmente obras de Charles Dickens e Noel Coward. Filmes Românticos na sua essência, desilusórios e esperançosos, com momentos intrigantes e uma honorabilidade incomensurável. Grandes Esperanças é um grande exemplo disso. O fatídico livro de Dickens virou uma obra espetacular na mão de Sir David Lean ao casar o belo e o feio da sociedade interiorana - e londrina - do século XIX. A birra de uma jovem, a mania estúpida de se brigar por diversão, o assombro de uma situação de perigo - coisas que paulistanos sabem muito bem o que é na última semana -, o distanciamento de um passado que não existe mais. A gramática da vida: por mais que nossas vidas mudem, somos sempre os mesmos, mesmo que tenhamos esquecido disso.

Inicia-se com sua infância, morando com a irmã malvada. O garoto vai ao cemitério visitar o túmulo de sua mãe e um fugitivoda prisão o aborda, pedindo comida. Ele não fala nada a ninguém e ajuda tal pobre homem. Uma mulher, algum tempo depois, rica e solitária, louca após o casamento que nunca ocorreu, busca na criança uma cerne de entretenimento. Ele então cresce, sempre visitando tal senhora por um motivo acima de tudo: a bela garota má por quem se apaixonou desde o primeiro dia que a conheceu. Um dia ela se muda de lá. Outro dia ele se muda. Alguma boa alma resolveu custear sua vida na capital inglesa com o propósito de troná-lo fino e bem educado, como um nobre. As mudanças surgirão, e fatos ocorrerão.

Com o passar da trama, vislumbramos um engimático senso de certo ou errado. O jogo que Lean faz com o poder do dinheiro é impressionante. Mais belo ainda é a usurpação das tradições matrimoniais, presentes a cada momento para inflar uma idéia pendente no caráter moralista de uma sociedade conservadora como é a Inglaterra - a rainha ainda é um símbolo de grande respeito, mesmo não tendo poder político algum, não? À parte dessas questões, o que mais me encanta e apaixona é maneira com que ele lida com o amor. A crença infantil de negar sua paixão muitas vezes e crer que fazendo mal ao alvo de sua ternura, estará despistando tal insólito sentimento. Combinando um aspecto triunfante ao vexame, polariza-se a virtude que se torna o degredar de um mundo quase perfeito.

E então, com serenidade e sensibilidade, o filme termina, a história termina, mas sem titubear na maneira nunca fácil como tudo se alcança. A tragédia sempre constantes cria a atmosfera ideal para o fantástico do cinema clássico verosssímel e crível. Imagens perturbadoras, caracterizações tão farsescas que se tornam mitos reais, crueldade e trivialidade num mundo em que se é tão fácil de imaginar.

Turbulência. Twist. Trepidações e tremulações. Um filme que busca a incerteza do ser nele mesmo ao confrontar e enigmatizar um ato solene. Quanto mais tempo passa, mais esquecidos clássicos como esse se tornam, principalmente por não ser um de seus filmes mais notáveis. Ao pensar em Sir David Lean, o que se vem à mente são seus épicos gloriosos e pomposos produzidos nos EUA. A oportunidade de vivenciar obras como Grandes Esperanças e Desencanto é imprecindível para provar todo o início de alguém que sempre foi grande. Belíssimas histórias de amor, tristes e carregadas de emoções. Não peço mais nada para um filme do que mágica.

Pode-se dizer várias coisas sobre filmes em língua inglesa. Pode-se dizer que são anqiquados e conservadores, que em nada quase inovam. Pode-se relegar os clássicos em detrimento de estrangeiros mordernos. Pode-se excluí-los da gama de filmes importantes. Mas não se pode negar que são filmes belíssimos feitos por grandes diretores que fizeram grandes filmes, e que ainda hoje, são inesquecíveis e talvez os mais belos que perpetuaram.

Nota: 100/100

Escutando: Meus Caros Amigos - Chico Buarque
Lendo: Arco do Triunfo - Erich Maria Remarque

A Descobrir

Nicholas Ray - Assim como David Lean, Ray é um cineasta que venho descobrindo. Hoje mesmo conferi duas obras fantásticas de tal diretor: O Crime Não Compensa (Kncok on any Door, 49) e No Silêncio da Noite (In a Lonely Place, 50). Ambos majestosos, lúgubres, que abdicam da forma tradicional de roteiro para criar a fábula do amargurado. E ninguém que Bogart para encenar tudo isso. Ray se mostra moderno mesmo estando no auge do clássico.

O Crime Não Compensa [90]
No Silêncio da Noite [97]

10 maio 2006

Momento de Orgulho


Carlos Reichenbach e eu

Carlão é um grande cineasta e autor do blog Reduto do Comodoro.

01 maio 2006

Filmes vistos em Abril (2006)

legenda: revistos / curtas



John Ford liderado pela segunda vez consecutiva o ranking do mês



  1. A Mãe (Mat, 26) [78]
  2. Loucura Americana (American Madness, 32) [70]
  3. Secretária (Secretary, 02) [38]
  4. Um Lugar Para Recomeçar (An Unfinished Life, 05) [50]
  5. M, o vampiro de Dusseldorf (M, 31) [84]
  6. Felizes Juntos (Cheun gwong tsa sit, 97) [79]
  7. Dr. Mabuse e o seu Destino (Dr. M, 90) [53]
  8. Os 12 Macacos (Twelve Monkeys, 95) [70]
  9. As Bonecas Russas (Les Poupées russes, 05) [67]
  10. Carta de uma Desconhecida (Letter from an Unknown Woman, 48) [88]
  11. Vidas Secas (Idem, 63) [90]
  12. O Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 93) [95]
  13. Bens Confiscados (Idem, 04) [64]
  14. O Plano Perfeito (Inside Man, 06) [70]
  15. Nossa Música (Notre musique, 04) [66]
  16. Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, 03) [80]
  17. A Sombra de um Homem (The Salton Sea, 02) [34]
  18. Crianças Invisíveis (Invisible Children, 05) [59]
  19. Bambi (Bambi, 42) [54]
  20. Fúria Sanguinária (White Heat, 48) [88]
  21. Vinil Verde (Idem, 04) [78]
  22. Cemitério São Luiz (Idem, 04) [71]
  23. Vinil Verde (Idem, 04) [72]
  24. V de Vingança (V for Vendetta, 06) [85]
  25. O Urso (L'Ours, 88) [45]
  26. Três Enterros (The Three Burials of Melquiades Estrada, 05) [96]
  27. Desencanto (Brief Encounter, 45) [95]
  28. O Novo Mundo (The New World, 05) [50]
  29. No Tempo das Diligências (Stagecoach, 39) [100]
  30. Brasília 18% (Idem, 06) [64]
  31. Moça com Brinco de Pérola (Girl with a Pearl Earring, 03) [85]
  32. A Lula e a Baleia (The Squid and the Whale, 05) [58]
  33. Ângelo anda Sumido (Idem, 97) [20]
  34. O Zumbi (The Ghoul, 33) [48]

Comentários: Média de 1,13 filmes por dia e 68,66 poor filme. Voltei a um bom número de filmes. Nada como feriados. Loucura Americana é um dos primeiros filmes de Capra, e o mais farco até hoje visto, um prelúdio para A Felicidade Não se Compra; recomendo a aqueles que gostaram de Secretária que assista a A Professora de Piano e vice-versa; M seria uma obra-prima se não fosse o meio tedioso; Wog Kar-Wai [Felizes Juntos] não é só 2046; O cinema nacional cada vez me parece melhor [Vidas secas], mesmo tendo coisas horríveis [Ângelo anda Sumido]; Só eu gosto bastante de O Feitiço do Tempo e o acha genial?; Godard [Nossa Música] não é só O Demônio das Onze Horas, graças a Deus; Como alguém gosta de Bambi?; Três Enterros poderia muito bem ter sido dirigido por Eastwood, talvez por isso gostei tanto do filme; Estou descobrindo David Lean [Desencanto], e ele é fantástico; Definitivamente John Ford [No Tempo das Diligências] passou para o lado das coisas boas; Porque filmes indies americanos tem que ter esse nomes esquisitos, como A Lula e a Baleia e Thumbsucker (Impulsividade)?; O primeiro filme britânico com Boris Karloff [O Zumbi] é uma porcaria.

Melhores:

  1. No Tempo das Diligências
  2. Três Enterros
  3. O Feitiço do Tempo
  4. Desencanto
  5. Vidas Secas

Piores:

  1. Ângelo Anda Sumido
  2. A Sombra de um Homem
  3. Secretária
  4. O Urso
  5. O Zumbi

PS.: No ar minha terceira participação na Coluna dos Rapaduras. Aqui.
PS2.: Minha meta para esse mês é escrever ao menos duas críticas.