21 abril 2006

As Bonecas Russas

As Bonecas Russas (Les Poupées Russes, 05)

Não foi por acaso que eu decidi assistir a esse filme na estréia há duas semanas. O encantamento que seu antecessor me havia produzido fora grande demais para eu deixar a continuação para outro dia. Albergue Espanhol tem todos os elementos capciosos do filme moderno e do filme roteiro acima de tudo. Filmes cuja capacidade de emocionar e adentrar na sua alma com a vivência, com a beleza e com os diálogos é até dogmático. Não esperava menos de As Bonecas Russas, talvez seja esse o motivo de 4 e não 5 estrelas. Ansiava por uma continuação com a mesma qualidade no debate, a mesma eloqüência, o mesmo espírito do primeiro, e nisso fui decepcionado. Do original só as personagens são as mesmas, toda a criação, todos os elementos estão imersas nas personagens. Ideal para quem não conferiu o primeiro, triste para quem conferiu e gostou.

Xavier é novamente o centro do filme, novamente o filme é sobre ele. Talvez o propósito é mostrar uma vida amargurada depois de um sonho, de uma experiência única e a decepção que ela se tornou. Mas a nostalgia e o sonho do primeiro se dispersaram e criaram uma situação instável e corrosiva. O glamour, em Albergue Espanhol, residia na amizade e na convivência, incorporando a vida Romântica, e afetos, uma imagem é criada. As Bonecas Russas desmente isso, mas erroneamente. Parece uma tentativa de ser Antes do Pôr-do-Sol, e não consegue. Este supera seu antecessor e cadencia a melancolia e a desilusão com os experimentos acertados de Antes do Amanhecer; aquele joga a melancolia, a desilusão com novas situações, geralmente marcadas por um fascínio estúpido dos jovens - música insuportável e latente, feliz é quem tem mais mulheres, viva à promiscuidade,... -, que quase antagoniza com a defloração da vida que é o primeiro.

5 anos após o primeiro filme, Xavier é um escritor de segunda. Empregos ruins e nada de alguém querer lançar seu livro Albegue Espanhol. Mulheres vão e vêm na sua vida e cama. Babá nas horas vagas. A vida é patética. Um dia ele reencontra uma comparsa do Albergue e arranja um bom emprego. Sua vida é tão ignóbil que ele não sabe o que fazer nessa eventualidade.

Seria esse filme a crise da União Européia? Não teria ela sido sucedida? Muito comentado pela sua diversidade cultural, diferença de língua, hábitos, mas unidos por algo em comum. O mundo está desabando, não há integração entre diferentes nações. As existentes são caóticas. Se Albergue Espanhol é o surgimento, seria As Bonecas Russas sua atordoada transição até o fim?

A comédia invadiu o filme, e levou tudo com ele. Sacadas geniais, porém a expectativa de outra coisa e a futilidade desta levam o filme ao rumo do esquecimento. Ou pior, ao rumo da famosa pragmaticidade: continuções são desnecessárias. Para que transformar algo numa comédia tola? Não seria mais fácil fazer outro filme? Cada vez mais que reflito sobre o filme, minha nota cai. Talvez o que salve o filme da completa estupidez seja a própria comédia - Xavier cantando e dançando ao longo da cena como fruto da cena é algo impagável.

A parte que mais gostei do filme foi justamente quando o elenco original entrou em cena. Infelizmente não foi o suficiente para segurar o filme. Diálogos sensaionais aparecem, e medíocres também. E justamente estes me lembram uma tentativa frustrada de ser Antes do Pôr-do-Sol, diálogos intelectualóides tentanto suprir e racionalizar o desejo humano e encontrar as razões da própria insignificância. Não funciona, pois o filme não conduz a isso.

Pensando no filme, chego a conclusão que se a intenção do filme era ser nostálgio, consegue. Nostálgico pelo filme anterior, pela experiência anterior, por algo que não volta mais... A inibição de Xavier a se entregar ao romance completa a amargura do primeiro filme, contudo a seqüencia de fatos instiga a um verdadeiro questionamento do tamanho da vida e de quanto ela vale. Ele se entrega... a tudo. Sua explicação para seu mundo é tão irracional talvez quanto a lógica do amor. Talvez por isso sua resposta para tudo sejam inerentes a alguém dotado de cérebro cinco anos antes. Viajando pelos sentimentos alheios ele se ressente, descobre a paixão, e faz de tudo para esquecer e convencer. As Bonecas Russas é o esterótipo de Albergue Espanhol.

Recursos estilísticos e discursivos fogem da sensibilidade do espectador ao transformar seus bons momentos em prognósticos para o que há de pior. Aquela coisa de que só se escreve bem sobre o vivido é tipicamente Manuel Bandeira, embora ele mesmo se contraria adicionando uma quase ficção aos seus poemas. Ao dar uma beleza, um luxo e um lirismo que o simples fato pode não possuir. É a estupidez subjugaldo a estupidez.

A trilha sonora é patética.

Só para ficar registrado, quando comecei a escrever, a nota era 84. No momento já caiu quase 20 pontos. Positiva ainda, pois apesar de tudo, o filme é bom. Assistindo sem pretensões, resultará bons momentos de comédia, bons diálogos, uma ótima interpretação de Kellie Reilly, e um resultado amargo. Poderia ser melhor.

Nota: 67/100

Escutando: Innuendo - Queen
Lendo: De Caligari a Hitler: Uma história psicológica do cinema alemão, de Siegrified Kracauer

A Descobrir

Fúria Sanguinárea (White Heat, 49) - O melhor do policial de antigamente. Raoul Walsh dá uma aula de como entreter com um suspense policial fantástico com mais de duas horas e meia. Olhos grudados na tela, o cinema fantástico. James Cagney surpreendente num momento espetacular se sua carreira. Complexo de Édipo, ética policial e fraternal... A utlização de uma montagem ágil, um clima eloquente, façanhas monumentais. Aquilo que ainda criará o faroeste de verdade. [88]

PS.: No ar minha segunda participação na Coluna dos Rapaduras. Aqui.

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