28 março 2006

A Máquina

A Máquina (Idem, 05)


Tempo para escrever é algo meio escasso para mim nesse mês. Não só para isso, vi muito menos filmes, e fiz muito menos coisas. Motivar-me para escrever e querer arranjar algum brecha para fazer-lo era o que eu precisava. Finalmente algum filme causou tal reação em mim. O brasileiro A Máquina é tudo o que faltava para eu ter certeza que o cinema nacional pode ser bom (e muito) sem ser maçante, sendo criativo e sabendo encantar - além de provar-me que o cinema atual desta terra vale, e talvez tanto quanto o Cinema Novo Brasileiro. Baseado na poesia dramática de Adriana Falcão, o filme foi adaptado para as telas por ela e pelo também diretor João Falcão. A história é irreverente, e um mesclado de diferentes filmes, livros, histórias, que combinam-se com uma estranha adição de singularidade, singeleza e realismo fantástico.

Belo e original, A Máquina é a primeira obra de Falcão nos cinemas como diretor. Ele imprime num cenário e fotografia carregados um tom cômico dramático que tornou-se impossível não me emocionar em cenas tão estranhas e apaixonantes, e não me divertir com a ingenuidade de uma personagem tão idealista e apaixonado. O formato de fábula dá uma cara diferente a um brasileiro idealista - brasileiro não, nordestino, o mais dos puros moradores de Nordestina, PE -, que não deixar de ser uma releitura de um clássico herói Romântico.

Na cidadela de Noderstina, Antônio é o caçula de uma família de 13 e o único a não querer sair da cidade. Desde a infância fora enamorada da bela Karina, uma garota que sempre quis conhecer o planeta. Quando percebe que ela está para partir, resolve buscar o mundo, para sempre ficarem juntos. Acreditando ser Chronos, decide viajar no tempo e colocar Nordestina no mapa, provando assim seu amor. Mas o fantástico vigora mais uma vez, e destinos talvez não se cruzem.

Antônio é como uma versão brasileira de Don Juan DeMarco, uma personagem que transcende tudo pelo amor, e que pode muitas vezes ser considerado louco ou exagerado. Mas verdade é uma só, e varia dependendo do ângulo. A verdade não é absoluta, por isso cinema é uma arte essecialmente humana. Existe margem para discussão, existem razões para o acontecimento, e motivações. Que de fato é tudo. O modo em que ele sofre e luta para evitar uma catástrofe em sua vida é a prova máxima de um homem que vive pela sua paixão, e que apesar dos rótulos é quem ele é, e está a par da sua verdade.

A máquina [do tempo] do título leva Antônio ao futuro com o único objetivo de ter sua amada para sempre. Determinista ou não, a questão não se foca nisso. Averigúa-se um sentimento revoltantemente brando e calmo. Talvez o homem não seja fruto daquele meio - afinal, ele luta pelo amor sensível sobretudo - e talvez seja - sendo filho do tempo, pode tudo, assim como meios externos o marcam. O fato é que um velho contador de histórias num hospício retratando a origem do mundo desde seus primórdios até os "dias de Antônio". A visão de mundo, seja pela simplicidade, ou mesmo pelo seu gabor, é por vezes esteriotipadas, mas que se enquadra mais uma vez num fantástico - e no de Don Juan -, tal que: o que é verdade?

A Máquina é a típica obra que pode ser classificada no regionalismo universal. Temática universal utilizando-se do regionalismo como recurso narrativo e discursivo. Algo teoricamente inventado por João Guimarães Rosa, e só agora consigo ver o possível brilhantismo disso. Talvez principalmente pela linguagem cinematográfica, em que vemos tais situações ocorrerem, sabendo abrandar o necessário e dramatizar o preciso, transitando entre duas fábulas: a vida real e a vida do imaginário.

O maior triunfo de A Máquina é trazer o mestre Paulo Autran de volta ao cinema. Autran deve ser o maior ator brasileiro do todos os tempos. Mestre nos teatros, teve incursões pela televisão - que hoje repudia - e pelo cinema, que ocasionalemnte consegue tragá-lo. Ele que direciona o filme e detém os grandes méritos da filmagem. O seu olhar, os seus trejeitos, seu sorriso potencilamente alegre, a maneira como compõe sua fala e as dispõe são fantásticos. Enfaticamente. A primeira cena em que foca-o olhando para a câmera é excepcional. Asssistir a esse filme é assistir a uma aula de atuação. Ninguém deve tentar se sobressair com ele em cena, seria patético. Sorte de Gustavo Falcão e de Mariana Ximenes que quase nunca contracenam com tal magnanimidade. É isso que dá destaque aos dois jovens ótimos atores. O primeiro um completo desconhecido, a segunda faz fama na televisão. E ambos possuem talento.

Uma coisa marcante é o cenário e a fotografia. Coloridos carregadamente, que rememoram Dogville também pelo seu aspecto de não ter fim e estar disposto em pequeno tamanha. "O céu que toca o chão", disse o Skank em Dois Rios, é a síntese de toda fantasia que eles mostram. Uma fotografia remetendo ao technicolor e ao faz de conta, é o ordinário. O cenário mostra a insignificância daquela pequena cidade. O absurdo que é colocar Nordestina no mapa é quase sintomático. Querer ser alguém naquela cidade é ilusão. Chronos na Terra é uma alusão a mitologia de antigamente, só deuses são capazes de tais coisas.

Esquisito, mas vejo A Máquina como o melhor exercício em carne e osso - de maneira abrasileirada - de Hayao Myiazaki e suas fantásticas animações. Só isso para mim já vale o ingresso.

Nota: 90/100

Escutando: At Folsom Prison, Johnny Cash
Lendo: Vidas Secas, de Graciliano Ramos

A Descobrir

O Eucouraçado Potenkim (Bronenosets Potyomkin, 25) - Revendo tal filme em cópia brasileira me fez ter uma nova visão do filme, e me fez acima de tudo compreender tal belo filme. Havia visto com legendas em francês, portanto o filme baseava-se principalmente nas imagens, que mesmo chocantes, perde seu efeito em parte. A cena da escadaria é uma das melhores seqüências do cinema, é soberbo. Feito em comemoração ao episódio-título, ocorrido na Revolução de 1905, que precede a Revolução Russa, o filme é comunista e tem qualidades. Nem tudo que é comunista é ruim.

0 Comentário(s):

Postar um comentário

<< Voltar