10 fevereiro 2006

Munique

Munique (Munich, 05)



A indicação de Munique ao Oscar em melhor filme (as outras - direção, roteiro, edição, trilha - eram esperadas) não me surpreendeu nem um pouco. Semprei apostei no filme, mesmo com a indiferença dos Guilds e do Globo de Ouro, e até mesmo da crítica americana, simplesmente porque é um trabalho sério de Spielberg, e de excelente qualidade - diferentemente de Amistad, que é apenas bom. A abordagem do filme de Spielberg mudou, mais maduro, mais crítico, mais frio, mais imparcial. Ele não dita as regras; o tom documental em muitas cenas remete-o ao cargo de observador. Spielberg está lá como mero espectador diante das imagens fortes, e dos fatos, aqueles que não se podem entender completamente, nunca. A questão política dita o filme, mas não apenas essa, é muito mai, é a questão do homem levado a um ponto extremado, sem saber aonde vai pisar. Munique trata muito mais do que a sucessão de eventos após o atentado em Munique, 1972. Trata de pessoas.
Mesmo com a tomada crua dos acontecimentos, o semi-documental - nas lembranças de Avner, em seus sonhos, sobre a maneira em que todo o terror foi conduzido, na análise fria da crueldade humana... -, Spielberg está lá. O paternalismo encontra-se lá, mas de maneira muito mais comedida, sem extravasar sentimentos. Spielberg sem paternalismo não é Spielberg. O fato de Avner, mesmo deixando a família por uma causa, não faz com que ele a abondone. Faz com que ele dê mais valor a ela, e em diversas cenas vê-se o quanto ela é importante para ele. A melhor cena do filme para mim é um momento de epifania de Avner, uma explosão saudosista e paternal - a primeira vez que ele escuta a voz da filha pelo telefone e tem uma crise de choro. A sensibilidade dessa cena é extrema, e o choque que causa depois de uma recepção tão fria, e de situações tão difíceis e clautrofóbicas das personagens, revela que ele é apenas humano, repleto de falhas.
Munique é mais um exercício do chamado cinema sério de Spielberg, deixando de lado o mundo da fantasia para tratar de fatos históricos. Sempre presentes nele existem o patriotismo e a luta pela causa. A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan, e agora Munique são seus melhores exemplos. Talvez esse aspecto seja superior no último por ser imparcial. A briga travada entre palestinos e judeus vêm desde antes da criação de Israel, e vêm angariando aliados desde a criação da ONU. Os palestinos são o maior povo apátrida do mundo, e fazem questão de ter o território israelense de volta. Os judeus dizem que aquela é a terra sagrada e que pertencia a eles. E a razão de ambos está presente, vide a conversa de Avner com o palestino. E estão lá, lutando por uma causa, em razão do patriotismo - também presentes na obra do cineasta. Porém esta causa e esse patriotismo são inspirados pela vingança, um sentimento de ódio, cheio de deseperança. Algo sombrio e muitas vezes desumano - a luta pela sobrevivência, o assassinato do comparsa espiritual. A tensão prevalece durante o filme ao lado da paranóia. A questão da incerteza, tudo acontecendo sem precedentes, não se sabe o que fazer, o que temer...

Acima eu falei que o filme trata de pessoas. Pessoas que lutam pela pátria, mas na realidade não existe uma pátria. Eles não existem. Quem são aqueles homens? São pessoas mandadas por um governo? Por Israel? Pelo Mossad? Ou eles estão por livre arbítrio? E tudo isso para que? Para excercer a vingança e trazer mais terrorismo ao mundo. Terrorismo tem ou não nação? A crítica que Spielberg faz ao atendado às torres gêmeas, e à própria Era Bush, está presente na última cena. E vê-se isso após as terríveis conseqüências da ação de Avner e companhia. Vale a pena se vingar de uma nação por terrorismo? Isso leva a algo? Mudou muita coisa com a ação de Avner? Ou só piorou por ter entrado pessoas mais reacionárias nos lugares dos antecessores? Aparentemente nada mudou, erro, piorou. 11/09/01 prova isso. O terrorismo está mais pesado, mais amplo, mais apátrida. Nem todos terroristas são como Avner que se importam em matar civis que não aqueles programados.

Eric Bana finalmente deixou para trás a mediocridade de Hulk, e cada vez mais melhora como ator. Sua paranóia, sua mania de perseguição e a verossimilhança disso é fantástica. E fantástico porque ele, como Avner, acaba se tornando fruto do filme. Com sua abordagem - e fotografia - cluastrofóbica e sufocante, dando margem a incerteza e a mania de perseguição. Não se pode confiar em nada e em ninguém. Seu melhor amigo pode ser aquilo que te trairá. A Bíblia já tratou disso.

Outras questões trabalhadas são a liberdade e a identidade. Quem são eles, certo? Um homem manufatura brinquedos, e na missão eles faz bombas. Eles não tem uma identidade própria, eles não fazem exatamente o que são designados. E a liberdade, eles a têm? Pode-se dizer que é fanatismo religioso? Ou não? Creio que não, a luta pelo ideal, ou pela causa, faz com que les não só percam a identidade, mas principalmente a liberdade. E Munique não é muito mais que um filme sobre quem perdeu sua liberdade.

Ciarán Hinds é outro que está ótimo. O melhor coadjuvante em cena. Ainda não gosto do novo 007, Daniel Craig. Desde Amor Para Sempre é um cara que me causa bastante desgosto. Geoffrey Rush pode ser melhor. E excelente ver Mathieu Almaric mais uma vez em uma atuação tão concentrada. Primeiro em Reis e Rainha e agora no novo de Spielberg. É um cara que realmente tem feito boas escolhas, e acima de tudo, atuado muito bem.

A fotografia meio acinzentada é fantástica. Fator utilitário para obra e contrução da tensão. O clima do filme se deve principalmente a ela. Um ultraje ter sido ignorada no Oscar. A trilha sonora de John Williams é muito boa, muito melhor ao menos que a de Memórias de uma Gueixa, dele mesmo.

Duvido que Capote seja melhor, dêem logo o terceiro Oscar para Spielberg e para seu filme. Junto com edição e roteiro adaptado - tenha minhas dúvidas a qual trilha prefiro.

Finalmente Spielberg fez algo genial novamente. Desde 2002 não dava 5 estrelas para o aclamado diretor, levando-se em conta que ele é o meu preferido. E mesmo os trechos um pouco cansativos são muito bons e não interferem muito.

Ah, e pasmem, Spielberg amadureceu tanto que em Munique não tem apenas cena de sexo normal, mas com uma grávida.

Indicações: filme, direção, roteiro adaptado, edição e trilha sonora.

Nota: 94/100

Escutando: CD (Plans - Death Cab for Cutie); Música (Who Loves the Sun - The Velvet Underground)

A Descobrir

A Dama de Honra (La Demoiselle d'honneur, 04) - O penúltimo filme de Claude Chabrol é fantástico. Uma comédia dramática carregada de ironia e um humor negro de primeira. É sutil e psicótico. O elenco é muito bom. A história é simples: homem que começa a namorar a dama de honra do casamento da irmã. Uma pena que um filme tão bom só estreou em uma sala de cinema aqui em São Paulo. Espero que quando cehgar em DVD todos tenham a oportunidade de assisti-lo. [87]

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