05 fevereiro 2006

the chariots rise

pode conter spoilers, eu sei lá, favor não deixar de ler por causa disso.
"secretária" é um filme que me surpreendeu. e confesso, fui ver cheia de preconceitos das piores espécies.

achei tudo, tudo muito sutil e de uma iminência quase insuportável, e talvez fosse conveniente - sem querer parecer puerilmente pedante - dizer aqui que muito provavelmente este filme é o único até agora que enxerga o que é a essência de todas as circunstâncias do sadismo e do masoquismo, vistos sob uma ótica extremamente delicada, sutil, cujas configurações permitem inferir aí também um sistema que admite doçura, carinho: amor.

a aparente história vulgar - convenhamos, a própria sinopse do filme é RIDÍCULA: uma mulher que sai de um HOSPÍCIO e tenta um emprego. ora, lee holloway não sai de um hospício. sai de uma clínica de tratamento. e o que mais me impressiona talvez sejam os comentários sobre esse filme. eu de fato fico assustada quando leio que várias pessoas não enxergaram nada de erótico nele, senão nas últimas cenas. e que os personagens principais são loucos. sei que é devidamente cafona ficar apontando esse tipo de coisa, mas que tipo de gente chama tudo que desvirtua do vulgar de LOUCO?

lee holloway é apenas uma personagem cansada. esgotada de uma ambiência familiar hermética, dura, americana, convencional demais para as suas púrpuras roupas, seu olhar arroxeado, demasiado melancólico aliado à postura de uma garota de vinte e poucos anos que se corta na ocasião de uma dor menos administrável.

o mais tocante, no entanto, são as tomadas dos olhares entre o personagem de james spader e ela. é de um erotismo incomensurável, isento de qualquer ameaça vulgar.

mas talvez, para mim, a cena mais bela, a mais tocante, aquela que denuncia o amor dele por ela, seja aquela em que ele a chama no escritório, e diz, lentamente que nunca, nunca mais ela se automutilará novamente. é extremamente comovente ver um ator tão frio quanto o james spader dizer isso com tanta autoridade e ternura ao mesmo tempo. e depois quando ela sai da sala também, sorrindo, e joga fora o estojo de costura no qual guarda todos os artefatos ( objetos cortantes, iodo, algodão).

talvez o final atenda a uma demanda de happy end, mas é bom, por outro lado, ver uma leitura possível de algo tão perturbador quanto os comportamentos sádicos e masoquistas transformarem-se em algo de profunda beleza, comum, como um relacionamento natural e possível de duas pessoas que encontraram nas suas teóricas patologias uma possibilidade de fazer disso uma forma de ser um ser-humano melhor, mais completo, menos sofrido. talvez porque the chariots rise mesmo, como submissamente ele retribui a ela todo o seu amor.
escrito por mel von erlea. em participação especial. sem autorização prévia do autor do blog.
mas eu mereço.

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