30 janeiro 2006

O Virgem de 40 Anos

O Virgem de 40 Anos (The 40 Years Old Virgin, 05)




Atualmente para se fazer uma comédia acima da média precisa-se apenas uma coisa: originalidade. Isso é com certeza o grande trunfo de O Virgem de 40 Anos. Atualmente, ver uma comédia mesmo, boa, excluindo todas as possíveis vertentes para o romance ou para o drama, é algo bem difícil, pelo menos para mim. Já faz um bom tempo que não via uma comédia assim, que busca na sátira, na paródia ao ser humano, com um leque de referências, retratar da maneira mais escrachada e exagerada possível para atingir a risada, não!, a gargalhada do espectador. Não condeno isso de maneira alguma, não é uma comédia cabeça, que te faz raciocinar, ou um pastelão artístico - estilo de Chaplin -, é a comédia feita para rir, "besteirol", que não deixa de ser inteligente. As sacadas são geniais. Fazia tempo que não gargalhava tanto no cinema, fazia muito tempo.

Evocando os velhos tempos dos Irmãos Farrely, o diretor estreante nos cinemas Judd Apatow, conta uma história se apoiando no quase imaginário. Quando vi o trailer, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a imagem do diretor Skinner, de Os Simpsons, um homem de 44 anos ainda virgem. Imaginem um homem com 40 anos virgem, hoje em dia é difícil se pensar em alguém com 20 anos virgem. A nossa sociedade se tornou tão precoce, que só de ver um título desses, um sorriso é produzido. Virou irreal, fantasia. Mesmo nos tempos passados, uma hipótese dessa era estranha - mesmo que fosse escondido, como a Rainha Virgem, que de virgem não tinha nada. Até mesmo padres, celibatários, é difícil imaginá-los virgem, devido a toda corrupção da Igreja. É só assistir a O Nome da Rosa para evidenciar isso. De maneira alguma quero dizer que não há celibatários oficiais virgens, com certeza existem, mas cada vez mais é difícil encontrá-los. Por isso soa tão absurdo a idéia de alguém com 40 anos ser virgem. O filme ainda coloca o sexo como diferenciador, o virgem era imaginado como um psicopata por seu colega de trabalho de tão pavorosamente patético que era e ao mesmo tempo apavorante.

A originalidade do filme vem cargada nisso. O cara é tão vazio, tão patético, que é um crianção, não em maturidade, mas na questão do prazer, já que seu motivo de adoração são seus brinquedos - seus bonecos - na embalagem original - outro detalhe que me remete a Os Simpsons, na personagem do dono da loja de quadrinhos -, e um fim de semana conturbado é quando ele sente desejo por um determinado tipo de sanduíche. Até que um dia ele é convidado para jogar pôquer, e uma cena hilária sucede-se. A partir daí, todos os esforços dos agora amigos serão revertidos numa tentativa de fazê-lo transar, a qualquer custo.

Andy - o virgem -, é, quanto ao sexo, como um garoto de 12/13 anos, que quer saber de tudo sobre sexo. Posições, como fazer na hora, dicas, entre outras coisas. E o paralelo que se pode ver nisso é com a juventude, com o diferencial que ele é um sujeito frustrado.


Para não ser um pretenso estraga prazer não contarei outras referências, e nem descreverei as cenas, só irei mencionar as melhores: quando descobrem que ele é virgem, a depilação, colocando a camisinha, visitando um centro de ajuda sobre sexo, falando com a mocinha da loja ao lado, quando David o presenteia com uma caixa e a brilhante cena final.

Vocês conhecem um cara chamado Steve Carell? Ele andou fazendo umas comédias, sempre como coadjuvante. Ele é Evan Braxter de Todo Poderoso e Brick Tamland de O Âncora. Quem viu os filmes sabe que ele é um dos grandes atrativos - a melhor cena de Todo Poderoso é protagonizada por ele -, e agora ele virou o principal. Steve Carell é O Virgem de 40 Anos, e sem dúvida é a melhor revelação do ano, e é dono de uma das melhores performances do ano. Só vendo para descobrir que ele será um dos grandes comediantes, colocando para trás nomes como Ben Stiller e até mesmo Jim Carrey - pelo menos no âmbito da comédia. A expressão dele é fenomenal, sua tonalidade de voz, sua maneira exaltada, são perfeitas. Ele é a razão para esse filme ser tão engraçado. Sinceramente, deveriam chover nomeações a prêmios e propostas de trabalho. O cara é fenomenal.

Pode até ser que eu esteja superestimando essa comédia, que tem sua genuidade no grotesco, e pode até ser taxada de mau gosto, mas não se pode negar a originalidade do roteiro, peculiar, irônico, satírico e com uma boa dose de humor negro. Finalmente esse gênero está de volta com um bom representante.

A trilha sonora também tem seus atrativos.

Eu queria me prolongar, mas não quero estragar nenhuma possível cena do filme, pois o seu grande deleite é assisti-lo e rir, gargalhar, pois a comédia foi feita para isso, ainda mais essa, descompromissada, e cheia de achados, que tem em seu poder, o excelente emprego das referências, seja explícita, seja na paródia.

Só deixando uma cena:

Cal: Be David Caruso in Jade.
Beth: [Andy is staring at her] Can I help you?
Andy Stitzer: Do I need help?
Beth: Ummm... is there something you are looking for?
Andy Stitzer: Is there something I should be looking for?
Beth: We have an extensive do-it-yourself section.
Andy Stitzer: Do you like to ... do it yourself?

Nota: 85/100

Escutando: CD (Begin Here - The Zombies); Música (Let Me Down Slow - The Rolling Stones)

A Descobrir

A Chave Mestra (The Skelleton Key, 05) - Outro gênero que está retornando com força é o terror. O primeiro grande terror do ano (no considero Água Negra terror), se sustenta num terror com muito suspense, cenas arrepiadoras, lendas e um clima tenso. O final surpreende desfecha brilhantemente o filme. E pensar que a principal razão de querer ver o filme foi Kate Hudson. A história narra uma situação com a prática do hudu, uma forte magia que só afeta quem nela acredita. A personagem de Hudson é contratada por uma mulher cuja a casa foi palco de tais usos. Vale a pena. [83]

Postado originalmente em 27/09/2005.

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