30 janeiro 2006

O Segredo de Brokeback Mountain

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 05)

Creio que esse será o último comentário grande sobre filmes vistos na Mostra. Não trago na minha memória tantas lembranças como gostaria para elaborar os demais textos. Escolhi Brokeback Mountain para comentar pela aura que está se formando ao redor deste. Grandes chances no Oscar nas categorias principais, prêmio do Festival de Veneza, críticas bastante positivas... O drama gay de Ang Lee tem conquistado as pessoas, aludido a um romance impossível e fadado ao preconceito. Outro filme em que tinha grandes expectativas.

Acho que tenho birra de Ang Lee, não é possível que seja tão aclamado e ainda não tenha visto nada além do mediano. Hulk é algo desprezível, detesto e muito, como se pode ver na minha crítica sobre tal. O Tigre e o Dragão é um filme que preciso rever, porém as lembranças que esse me traz é de apenas um bom filme, correto, que não empolga e bom entretenimento. O cinema de Lee aparenta-me muito distante, sem emoção, ou ao menos sem indução a ela; interessante perceber que o causador de minha descrença nele é o fato de seus filmes serem para mim extremamente frios. O drama do homem verde beira o patético a partir do momento em que não há verdade na sua expressão. Em Brokeback Mountain, Lee tenta por demais mostrar como funcionaria o relacionamento homossexual na área rural americana durante a década de 60/70, as dificuldades enfrentadas, empecilhos, as fugas à montanha Brokeback.

O grande problema do filme reside na contradição que envolve a trama. O envolvimento de ambos, a paixão, o desejo de luxúria nasce de maneira muito simples e fácil. Não creio que haja uma barreira tão facilmente tranposta entre a heterossexualidade e a homossexualidade, tampouco amor à primeira vista. Isso além de ser pouco crível - e vejo aqui o mesmo problema de Cold Mountain, a questão do amor sem praticamente paixão -, contrapõe-se às enormes dificuldades encontradas pelo casal para se verem, e para manterem o relacionamento ambíguo. Acho inconcebível pessoas que se dizem heterossexuais, tão distintas entre si, num momento, inesperadamente - só porque dividem a mesma barraca durante a noite -, acordam e resolvem trocar carícias e satisfazerem suas necessidades libidinosas. Contra-argumentarão dizendo que é algo determinista, na qual o ambiente e as condições a que estavam submetidos os fizeram sentir-se desesperados por carinho e sexo. Disso, infiro duas coisas: continua implausível que dois heterossexuais resolvam, do nada, praticarem relações sexuais com outros homens; se foi só pela necessidade, por que continuam? e como issso transforma-se em amor? Desconheço casos onde a luxúria venha antes do amor. Desconheço casos como esse, exceptuando-se os famosos casos de prisões.

É incoerente ver aquela "paixão" agressiva transformar-se em amor singelo. Dois caubóis que supostamente representam a masculinidade entregues um ao outro de maneira tão fraca, tão medíocre. Lee parece querer contrapor a masculinidade à feminilidade, ao juntar caubóis e homossexualismo. Se sua intenção foi sensibilizar o drama passsado por quem tem essa opção sexual, e que gays só diferem dos heteros na questão da repressão e preconceito, não conseguiu. As cenas fortes de sexo, e as diversas investidas pela devassidão e indecência só poderão causar ainda mais asco em aqueles que abominam essa inversão de valores. Pode ser que até comova os simpatizantes com essa realidade, mas se você, assim como eu, não se comove, indendente da relação, com algo tão distante e frio, com escassez de sensibilidade, esse filme só servirá para o tédio.

Há tentativas não continuadas de aprofundar a relação entre os dois, mas a sensação de que tudo aquilo é só sexo não permite a coesão entre os fatos. Depois de se estender, a uma continuada propagação de elementos chave para a comoção do público, tal como aquele clássico exemplo em que o indivíduo morre e é glorificado, mesmo por aqueles que o abominavam. A hipocrisia. Ao tornar-se alimento de vermes, é glorificado. O filme termina assim, querendo de qualquer forma glorificar, não importa como fora tratado e abordado antes.

A dupla de atores tão aplaudida por suas respectivas atuações nesse filme está bem. Não mais que isso. Jake Gylenhaal é o eterno Donnie Darko, nunca o vi também bem quanto neste filme. Ele é muito bom em personagens perturbados, papel de bonzinho não é o seu forte. Heath Leadger está bem, e isso é muito acima de qualquer coisa que já tenha feito em sua existência. Até então um eterno ator teen querendo fazer dramas humanos e adultos. Não é um grande destaque, mas longe de ser a incompetência que é normalmente.

Sim, o filme tem seus aspectos positivos. O cenário é fantástico, as pradarias mostradas são lindas e mostra-se como o grande elemento do filme. A trilha sonora é o outro grande aspecto.

Dizem que se um drama de caubóis gays fosse dirigido por Clint Eastwood, o resultado seria semelhante a esse. Discordo, o romance de Eastwood - leia-se As Pontes de Madison - é muito mais intenso no âmbito emocional, muito melhor caracterizado e muito menos hipócrita.

Talvez esteja equivocado, talvez não esteja sendo justo com o filme, talvez tenha tido expectativas muito grandes em trono da película, sei apenas que o filme apresentou-me mais elementos negativos do que positivos. Quem sabe melhora numa revisão?

Nota: 50/100

Escutando: CD (October - U2); Música (The progress Suite Prologue - Chad and Jeremy)

A Descobrir

Colateral (Collateral, 04)
- Assisto ao filme pela segunda vez, e mesmo que o final me pareça bem menos impactante, continua um filmaço. Tom Cruise, repito, na melhor atuação de sua vida e na melhor atuação do ano passado. Jamie Foxx é um mero coadjuvante na trama. O suspense criado pelo matador de aluguel é fantástico. Um filme denso, que apresenta elementos argumentativos fantásticos. [90]

Postado originalmente em 22/11/2005.

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