30 janeiro 2006

O Aviador

O Aviador (The Aviator, 04)


O último filme de Martin Scorsese me decepcionou bastante. Mas não posso negar que existe sim, qualidades no filme e que quem dirigiu foi o mestre Scorsese, só isso já é o suficiente para suas 3 estrelas. Isso pode soar contraditório ou confuso, mas é exatamente por ser dirigido pelo mestre Scorsese que eu esperava um pouco mais de dinâmica, conteúdo (não só os fatos expostos), impacto e emoção. Ainda vou discursar esse quatro fatores que me desagradaram no filme para falar de suas indicações. Considero todas principais desmerecidas exceto para ator e talvez atriz coadjuvante, nas categorias técnicas há ressalvas. E não posso também deixar de dizer o quão superestimado esse filme se tornou, será que é só porque é de Scorsese e é uma super produção ele é bom? Porque o mesmo mestre de filmes como A Última Tentação de Cristo, Taxi Driver, Os Bons Companheiros e O Rei da Comédia tem cometido erros que tornam seus filmes bons porém medíocres para seu padrão. A exemplo disso temos o apenas bom Gangues de Nova York e esse O Aviador, filmes frios e cansativos. Scorsese já foi muito melhor.

Começando pelos pontos negativos: 1 - O filme possui quase três horas de duração, porém num ritmo muito irregular, alternando momentos mais frenéticos e outros bem arrastados. Precisa ter muita paciência para assitir numa boa. Minha namorada durmiu durante a projeção. 2 - Scorsese apenas jogou os fatos para nós, há apenas uma análise comportamental de uma personagem que poderia ser muito mais explorada devido ao teor de problemas que possuía. Howard Hughes, o magnata da aviação, era um homem com problemas, e problemas sérios. Mas são pouquíssimos os momentos em que vemos uma razão para isso. Grande falha do roteiro - que infelizmente vai levar o prêmio de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças - que não soube extrair algo mais interessante de alguém tão interessante. 3 - Foi-se o impacto da carreira do homem. Cenas memoráveis e chocantes escafederam-se. Sobrou apenas mais um filme correto. Um filme que mesmo sendo bom, bem produzido, bem conduzido, com uma narrativa interessante, está longe de ser uma produção inesquecível, com cenas antagônicas e análises psicológicas (presentes em todos os filmes que vi dele). É apenas mais um super-produção assinada por alguém extremamente cultuado. 4 - O Aviador contém um grau de frivolidade imenso. Um filme sem emoção, sem sentimentos, uma cinebiografia que exclui de suas personagens o mais importante no ser humano - os sentimentos - e implica, mas uma vez, nas características que o fizeram grande: seu dinheiro, seu transtorno e suas mulheres.

Antes de comentar o que me fizeram gostar do filme vou falar a sinopse - que não poderia faltar, pelo menos não nos meus textos -, porque até agora só falei mal dele, e dificilmente isso explicaria três (míseras) estrelas. A celulóide conta a história de Howard Hughes, magnata da aviação, multimilionário, cineasta, ao longo de aproximadamente 20 anos. Abordando seus problemas com filmes, aviões, mulheres e ele mesmo.


Eis então os pontos positivos: 1 - Leonardo DiCaprio está impecável. Não sei se alguém se lembra que há alguns posts atrás eu acabei com DiCaprio, falando que depois que fez Titanic se tornou um ator ruim, com atuações tristes de serem assistidas, mas volto atrás. Ele mostrou-me que sabe atuar, sabe "entrar" na personagem e executar o trabalho sem caricaturismo. Eu erro e admito (às vezes) quando erro, e essa foi uma delas. Mereceu a indicação, pois é a melhor coisa do filme. 2 - Eu sei que critiquei a direção acima, mas não posso deixar de vangloriar Scorsese em determinados aspectos: a maneira como ele conduz as boas cenas, como ele transforma o momento de reclusão de Hughes na melhor cena do filme, que por mais que não seja inesquecível, abrange tudo o que ele poderia ensinar (mas só nessa cena também). 3 - A história pois mais superficial que seja mostrada não deixa de ser interessante. Só a personagem de Howard Hughes, que sofria de transtorno obsessivo-compulsivo, vale o ingresso. Hughes é a grande atração, e é muito curioso ver todas as manias e obsessões da personagem. A cena em que está lavando as mãos mostra toda excentricidade de Hughes. 4 - A película, tecnicamente, é quase impecável. Belos figurinos, fotografia, cenários, som, tudo - só não gostei da trilha sonora, Shore já cansou - e esse aspecto torna ao menos agradável de ser assistido. Mas não é mais que uma obrigação de uma produção de tal grandeza. 5 - Leonardo DiCaprio foi mencionado a parte pela sua fantástica atuação, mas isso não significa que o elenco esteja mal. Estão todos muito bem, Cate Blanchett pricipalmente, como Katherine Hepburn. Tá certo que ela era insurpotável, extremamente chata, mas a representação está boa. Ainda não sei se mereceu a indicação. Alan Alda, Jude Law, Kate Beckinsale, Alec Baldwin estão competentes, não se destacam muito - me expliquem o que Alda faz na lista de indicados. Ah, não posso esquecer de John C. Reilly que me ganhou em Chicago. O cara manda muito bem mais uma vez.

Não sei se alguém teve saco de chegar até aqui. O texto tá chato e longo. Mas quem chegou, obrigado! Não sei se consegui ser claro no porque o filme me decepcionou tanto. O Aviador por mais que tenha seus méritos derrapa em muito fatores, parecendo uma produção mecânica. É um filme feito exclusivamente para ganhar o Oscar de filme e direção, inédito na carreira de Scorsese. Há quem discorde. Mas esse filme foi feito exclusivamente para isso, acho que por isso é tão correto. Não que isso seja ruim, já defendi produções feitas para levar prêmios (aka. Em Busca da Terra do Nunca), mas eu não esperaria isso de tão magnífico cineasta.

Indicações: Filme, Direção, Ator, Atriz Coadjuvante, Ator Coadjuvante, Roteiro original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte & Cenário, Som e Figurino.

Nota: 65/100

Escutando: CD (OST Labirinto - Trevor Jones e David Bowie); Música (Happy Together - The Turtles)


A Descobrir

Mar Adentro (Mar Adentro, 04) - Esperava mais desse filme também. Mas Mar Adentro consegue ter o que O Aviador não tem: emoção. Um filme que é político e racional. Discute a eutanásia mas não a defende, defende o direito de escolha. Um roteiro muito bem elaborado, brilhante atuação de Javier Barden e uma ótima trilha sonora. Destaque para a cena em que "Mar Adentro" de Ramón Sampedro (a personagem tetraplégica) é declamado. O filme
conta a história real de Ramón Sampedro, homem que ficou tetraplégico em um acidente e luta pela sua morte desde então. [86]

Postado originalmente em 22/02/2005.

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