30 janeiro 2006

Mistérios da Carne

Mistérios da Carne (Mysterious Skin, 04)

Após um hiato de um mês e meio, volto a escrever um texto grande. Não era desmotivação e sim falta de tempo, e a busca por uma proposta diferente - como comentar a lista de filmes vistos na Mostra, e voltar a fazer um TOP. E entre tantos filmes a comentar, escolhi este filme independente que vi nos cinemas há poucos dias, creio que mais pelo impacto do que pela qualidade. Mistérios da Carne, de Gregg Araki, é um filme complexo, que trata de um assunto delicado que está na moda: pedofilia, e isso acaba se afiliando a outros assuntos na moda como o homossexualismo. E quanto aos dois temas, esse sai a frente dos filmes que mais se foi comentado, O Lenhador e O Segredo de Brokeback Mountain. Araki faz um drama forte, com cenas pesadas, e ousa nas cenas de sexo envolvendo infantes, principalmente nas sugestões. Indução é a palavra chave do filme.

O roteiro é sincero, um típico filme que realmente mostra muito do drama daqueles que foram abusados sexualmente quando crianças, e como a psique humana reage. É o modelo de auto defesa de cada um, diferentes pessoas reagem de diferentes maneiras, certo? Seja consciente ou inconscientemente. À diferentes traumas ou mesmo situações, pessoas agem diferentemente, até mesmo ao tipo de criação. A personagem de Neil é fruto da criação de sua depravada mãe e do abuso que sofrerá pelo técnico - que impressionantemente idêntico ao ex-vocalista do Queen, Freddie Mercury. A primeira cena diz tudo, ele, aos 8 anos, se masturbando (eu realmente não sabia que era possível crianças de 8 anos fazerem-no e ainda ejacularem) ao ver o namorado de sua mãe e ela fazendo sexo no escorregador, demonstra além do doentio, o interesse, que não é ver a transa e sim como o namorado reage nela. Isso o excita.

Há a trama paralela ao drama de vida de Neil. O garoto Brian perdeu cinco horas de sua vida, não se sabe como. Acordou com o nariz sangrando do lado de fora de sua casa. A partir desse momento sempre desmaia, seu nariz sangra, urina na cama, o que vem a ser intensificado quando novamente sofre um blackout mental. Ele era colega de baseball de Neil. Aos 18 anos crê que fora abduzido, e que Neil estava ao seu lado. E é só num possível encontro entre eles que tudo poderia ser descoberto. A questão que agora Neil virou um jovem sem escrúpulos e frio, a homossexualidade infantil se elevou ao grau da prostituição. A ausência de medo de uma fatalidade não o apavora, ele odeia a própria vida mesmo gostando de viver. Sua vida é um jogo. Anda sem rumo, destrói corações, se vende e se deprava. Não se importa com nada na aparência e é um tanto reservado quanto ao seu passado, o passado que é a solução.

A questão base da narrativa é a diferença entre as pessoas. Como alguém que era abusado sexualmente, vítima da pedofilia poderia crescer dentro dos padrões de normalidade de nossa sociedade. Os traumas e situações constrangedoras modificam um ser humano, e mesmo com diferentes fins, a mudança é radical, e tais pessoas nunca serão como antes.

Na trama paralela percebe-se como a cultura pop influencia a mente das pessoas. 5 horas da mente de um garoto desapareceu e depois disso diversos sonhos sobre e diversas consequências físicas. A conclusão que chega é que foi abduzido por alienígenas. Programas na TV o induzem a contatar uma mulher que alega o mesmo, e percebe-se claramente que ela é um alma perturbada, que fora traumatizada em uma circunstância. As pistas dessas 5 horas são dadas ao longo do filme, e a cena em que tal mulher perturbada se entrega a ele é a principal. Vemos dois atos um tanto distantes e descrentes. Aparentemente há dois tipos de pessoas que alegam a abdução, aquelas que querem atenção, e aqueles que realmente acreditam. Ambos - ao menos para mim, que não acredita em abduções e nessas bobagens - vêm de algum trauma, fruto da mente humana que em algum momento de sua vida sofreu uma forte frustração.

Fazendo-se um paralelo, a temática de Mistérios da Carne pode-se aludir com Old Boy. Maneiras como uma pessoa reage com diferentes traumas. Até que ponto há limite para imaginação humana, e até que ponto vamos quando recebemos um baque? Há pessoas que se suicidam com a morte do amado, há quem entre em profunda depressão, há quem prefira fingir não estar abalado, há intermináveis maneiras de reagir com o mesmo acontecimento e não há como julgar, por mais psicopata ou esquizofrênico que seja.

Questões toscas a parte. Joseph Gordon-Levitt, revelado no seriado 3rd Rock From the Sun, está bem. Não concordo com todos que dizem que está soberbo, maravilhoso e o relacionam a outros adjetivos que enaltecem sua atuação. É uma boa atuação, e concordo se disserem que esse é seu melhor papel até o momento, mas longe de ser fantástico. Com esse filme ele demonstra que é capaz de fazer, sem problemas, papéis que possuam uma densidade dramática.

Vale o destaque para o belo final, sensível e sensato.

Nota: 80/100

Escutando: CD (The Life Pursuit - Belle and Sebastian); Música (You've Got a Lovely Daughter Mrs. Brown - Herman's Hermits)

A Descobrir

Nosferatu, o Vampiro da Noite (Nosferatu - Phantom der Nacht, 79)
- Refilmagem do clássico de Murnau, Nosferatu de Werner Herzog é bem melhor que o original. Mudou-se completamente a trama original, principalmente em relação ao livro Drácula, de Bram Stoker. E essa originalidade que torna o filme tão soberbo. Klaus Kinski está fantástico na pele do conde Drácula. E um jovem Ganz faz Johnathan Harker. O final é uma primazia devido a sua irreverência. ou [87-92]

Postado originalmente em 08/01/2006.

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