30 janeiro 2006

Marcas da Violência

Marcas da Violência (A History of Violence, 05)

Começo hoje o primeiro comentário sobre a Mostra Internacional de Cinema São Paulo. Pretendo fazer algumas críticas no meu padrão usual, e das restantes fazer uma breve análise. Afirmo já que devo ser a única pessoa que não gostou de Marcas da Violência, não vi um comentário negativo, nada. Adoro David Cronenberg, dos poucos que vi, sou entusiasta de todos. Talvez seja isso que causou a decepção para esse, que se anuncia como uma crítica em sátira à violência nos EUA. E talvez ele realmente consiga ser o que pretende, mas falta a densidade dramática esperada. Com o histórico desse filme não é difícil perceber o motivo de minha desilusão - certamente a desilusão foi só minha -, seja tendo Cronenberg na direção, um diretor que sabe contar histórias muito bizarras de uma ótima maneira, seja no "hype" depositado na película, prêmios pelo mundo, indicação à Palma de Ouro...

No entanto, apesar da genialidade deste, tal aspecto está escasso nesse filme. Não que seja errado, ruim, ou qualquer coisa destrutora, mas o fato é que Cronenberg abandona sua originalidade e parece querer tornar-se uma cópia de Tarantino, especialmente quando se fala de Kill Bill. Situações desconfortáveis, risos causados pelo exagero, violência estilizada e um constante senso de ironia permeiam a história. Repito mais uma vez: isso não é algo negativo, porém a maneira tratada e a grande semelhança com o cinema anticonvencional de Quentin mostram a falta de novas abordagens, de novas maneiras de se fazer cinema que não só rodeiam Marcas da Violência como grande parte do cinema. O filme de Cronenberg é mascarado em cult, ele sabe o que faz, já virou uma fórmula fazer filmes "queridos pela crítica"; distante exemplo de cinema autoral, como lhe é atribuído.

O filme é hilário, gargalhei em várias cenas, o humor funciona, e boa parte da alma tarantinesca funciona, mas infelizmente não é só disso que o filme é feito. A película parece não ter um propósito, um motivo de existência. Quer criticar a violência dos EUA? Mostrar a hipocrisia americana na questão do herói nacional? American Way of Life? Faça! as propostas são excelentes, mas querer fazer isso de maneira apressada, suprindo todos os possíveis eventos de maior cunho crítico, e contando a história com toda rapidez e superficialidade possível não é algo favorável ao desenvolvimento de uma história que tinha muito mais para dar. A sensação que tive ao sair do cinema foi de "já acabou?", "assim tão fácil?", tamanha a debilidade em que se encontra no rendimento da história.

Quando digo 'não ter um propósito', quero dizer que não há uma história em si, e sim uma sucessão de acontecimentos que desembocam numa conclusão sem haver uma trama de fato. Isso acarreta - ao menos para mim - numa indiferença profunda em relação ao filme e no senso fracasso da proposta. A falta de clímax comete a falta de abrangência da história, e exploração das situações e personagens é deixada de lado em detrimento da superficialidade da sucessão de eventos.

A película não é de todo mal, funcionando em alguns momentos, principalmente se você procura risos e cenas incríveis de luta, evocando a invencibilidade de Rambo. É o típico filme que não me atrai nem me causa repulsão e que provavelmente, numa revisão, subirá no meu conceito, já que irei ver desprentesiosamente, e toda essa análise crítica permanecerá, exceptuando pela questão da expectativa. É um filme divertido de assistir, que passa rapidamente - e enfatizo: rápido até demais - e distrai. Sem propóstiso de assitir, funciona muito melhor.

Ed Harris é excelente, um cara fantástico, sabe muito bem fazer o que lhe for dado. Uma pena ser um eterno coadjuvante, ou não, pois suas melhores atuações encontram-se nessa posição. Nesse filme é ele quem rouba todas as cenas. A crueza de sua personagem lhe cai como uma luva - uma pena que sua história termine de maneira tão simples e enfadonha. Viggo Mortensen é aquele bom ator, apenas isso, que descobrem e resolvem tornar astro. Felizmente ele não mais um Orlando Bloom da vida, que depois da cinessérie de extremo sucesso, O Senhor dos Anéis, viraram grandes estrelas de Hollywood.

Esteticamente o filme é bom. A trilha sonora de Howard Shore é legal, e a maquiagem se sobressai. Nada gritante, tudo muito comedido.

Ah, como de praxe, a história: numa cidade do interior americano, um sujeito dono de um restaurante é vítima de uma tentativa de agressão, assassinato e assalto. Ao ver que uma de suas funcionárias irá ser estuprada, ele intervém e acaba matando os dois meliantes. Torna-se então herói local e nacional. Um grupo de mafiosos vai atrás dele, alegando que ele não é quem diz ser e que seus passados já se cruzaram.

Vejam o filme e considerem-no uma obra-prima, ou seja o segundo a ter a mesma opinião que eu.

Nota: 53/100

Escutando: CD (Ziggy Stardust - David Bowie); Música (Candy Says - The Velvet Underground)

A Descobrir

Touro Indomável (Raging Bull, 80)
- O filme que deu a Robert De Niro seu único Oscar de Melhor Ator é um ótimo retrato de um homem voltado à selvageria e truculência. O homem instintivo, levado pela vida e pelo boxe, e o homem humano, cheia de culpa e perdão. Martin Scorsese é o cara. Seus filmes são fantásticos. Mesmo com a péssima cópia da Sessão Cineclube, o filme não deixa de ser uma experiência magnífica. E Robert De Niro é o cara, sua transformação física é impressionante. [85]

Postado originalmente em 08/11/2005.

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