30 janeiro 2006

A Ilha

A Ilha (The Island, 05)



Pode conter SPOILERS, ou não, depende do fato de você ter lido sinopse, visto o trailer e algum filme de Bay

Começo esse review confessando a minha não repulsa pelo cinema de Michael Bay. Devo ser a única pessoa da blogosfera cinéfila que considera Pearl Harbor um filme fantástico, capaz de fazer bonito num top 20 de 2000 para cá. E falo sério quando galardeio o romance de guerra de Bay com 5 estrelas. Eu realmente adoro Pearl Harbor, não importa o número de comentários de pessoas denegrindo a imagem deste filme e muitas vezes tentando me insultar ou acusar-me de mal gosto ou ofensa a arte do cinema. Sim, gosto e muito. Armaggedon é outro filme de Bay que me agrada, não tanto quanto o primeiro, mas é um obra divertidíssima. Porém, Bay tem seu lado que detesto: ambos Bad Boys. A Ilha tinha cara de filme que eu ia adorar, parecia estar longe dos desprovidos de cérebro Bad Boys I e II. E até metade dele estava felicíssimo. É, A Ilha tornou-se um dos filmes de Bay que não gosto, mas ainda não o considero um péssimo diretor.

A Ilha começa de uma maneira fantástica. A discussão da liberdade, até que ponto ela existe? A Ilha é como o paraíso da Igreja Católica. Devemos viver sob regras durante nossa vida, pois depois seremos recompensados. Isso explica o básico da almejada ilha. A lavagem cerebral que a Igreja realizou na Idade das Trevas é o mesmo que acontece com os habitantes do complexo. A cada semana um é sorteado para ir à ilha, independente de quanto tempo você está lá. Só se sabe uma coisa, você um dia irá para lá. Enquanto você vive lá, tem-se de viver sob as regras daquela sociedade. Até contato físico é proibido. Teoricamente, aquele complexo é um reduto de pessoas que sobreviveram a uma atrocidade que abalou tudo. Não haveria mais vidas devido a uma contaminação. Lá elas são reeducadas e vidas decorrem com a mesma rotina. Six Echo faz o papel dos cientistas na Idade Média, ele é a personagem que começa a contestar toda aquela hegemonia, e obviamente, quem contesta contra o poder tem de ser punido, pelo menos na teoria, certo?

Além dessa discussão, ainda temos a reviravolta mostrada nos trailers. Eles não passam de clones de pessoas no mundo "real", e que, se necessário, servirão para curá-los, ou seja, o mercado dos clones humanos - faz-se o clone, se precisar de um rim no futuro é só extrair de seu clone pois ele não trará rejeição. O problema é que os clones não são seres vegetais, e sim pessoas dotadas de consiência. Entra aí outra discussão, atualmente na moda, sobre a clonagem. Certo ou errado? O que eles faziam era correto? É ético criar-se pessoas que teoricamente já existem para fins comerciais? A primeira metade do filme fantástica. O roteiro dando show com uma discussão religiosa-político-histórica-filosófica, utilizando-se de metáforas e um contexto altamente verossímil naquelas condições, ao menos, perfeitamente acreditável.


O problema do filme começa quando Six Echo descobre a existência desse mundo real e leva seu flerte, Jordan Two Delta, com ele. Aí já não sabe-se se o propósito do filme era atualizar a história, contextualizar o passado, ou mesmo inaugurar um novo padrão para o cinema de ficção, ou se apenas queria-se mostrar o potencial de carros, helicópteros, motos e da equipe de efeitos sonoros. Começa a fuga, uma barulheira infernal, a câmera treme causando-me até um certo enjôo de tanto que balança, o som ensurdecedor dos trasportes por eles escolhidos, todos dotados de uma velocidade incrível. Corre, salta, pula, voa, atira, cai, vira, gira, anda, se esconde, pula, grita, corre, salta, pula, voa, atira, cai, vira, gira, anda, se esconde, pula... O policial malvado que na verdade é bonzinho se transforma, clichês, clichês, clichês (e dos bem chatos), barulho, tontura, sensação de que estamos numa demonstração de veículos, com o diferencial que estamos embaixo do veículo em questão. Não, obrigado, eu passo esse tipo de entretenimento.

E contradigo-me agora, pois toda culpa do filme tornar o que é em grande parte de Michael Bay. Se não fosse ele, a probabilidade do filme se tornar insuportável a partir da metade seria bem menor - a não ser que o diretor escolhido fosse uma outra versão de Bay.

Mas o filme tem seus pontos positivos, e o nome de um deles é Steve Buscemi. Sim, pois não importa em que filme trabalha ele sempre será um dos mais originais e melhores em cena. Ele é fantástico, o melhor em cena e um dos atores mais subestimados que existem. Sobressai-se em toda cena com as versões piloto automático dos protagonistas Ewan McGregor e Scarlett Johanson.

Uma coisa que não entendo é mania de atores ótimos, com uma carreira brilhante a frente e fazerem qualquer porcaria que aparecesse. Vou exemplificar no filme: Michael Clarke Duncan e Dijimon Houson. Sem preconceito em relação a origem africana. Mas expliquem-me, por favor, por que dois atores do porte deles se rendem a tais projetos fadados ao esquecimento, e não digam-me dinheiro, pois os papéis deles são tão pequenos e até mesmo insignificantes que a quantia que recebem não deve ser muito - para padrões hollywoodianos, obviamente. Dijimon mostrou-se um ator fantástico em Amistad pela primeira vez, depois em Gladiador, e finalizou com Terra de Sonhos - que contém sua melhor atuação por mim vista e ganhou uma indicação ao Oscar -, e esse ano participa dos fracos Constantine e A Ilha - fora as participações em Lara Croft e Corridas Clandestinas. Duncan é pior, À Espera de um Milagre o colocou em evidência, mostrando todo seu talento e garantiu uma indicação ao Oscar, depois vieram - só para citar alguns - Spot, O Escorpião Rei e George, O Rei das Florestas 2. Mesmo em filmes com mais renome, como Sin City, sua participação é minúscula. Vai entender, como tais atores fazem isso? Se me falarem que são as únicas porpostas que recebem é o mesmo que atestar que Hollywood e o mundo estão em decadência.

Pelo menos o filme visualmente é bem feito.

Nota: 50/100

Escutando: CD (Quatro - Los Hermanos); Música (Cristal Days - Echo and the Bunnymen)


A Descobrir

Batedor de Carteiras (Pickpocket, 59) - Meu primeiro contato com Bresson foi absurdamente divertido. Até cogitei virar um batedor de carteiras. O cinema francês tem coisas muito boas, e esse é um dos bons exemplos. A narração da vida de um homem decadente que se sustenta a partir do fato que bate carteiras. Brilhante. [83]

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