30 janeiro 2006

A Fantástica Fábrica de Chocolates

A Fantástica Fábrica de Chocolates (Charlie and the Chocolate Factory, 05)



Pode conter SPOILERS, incluindo de outros filmes do Burton

Outro filme que não consigo decidir as estrelas. Pensava estar decidido, porém ao ver as fotos do filme meu coração começou a bater mais forte. Difícil... Posso dizer que este é o filme que mais ansiava neste ano. Gosto muito de Burton, de Depp e da primeira versão. E ao contrário do que ocorreu com Guerra dos Mundos, este não me decepcionou nem um pouco. Falta-me inspiração para escrever sobre o filme, e acho que ainda preciso revê-lo para poder opinar concretamente sobre tudo que achei sobre ele e ter idéias mais claras. Portanto creio que aqui expressarei uma opinião geral do filme, e tentarei discutir algumas opiniões polêmicas que surgiram, e algumas análises.

Inicialmente posso dizer que como filme mais esperado do ano por mim (e agora o que mais espero é As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e O Guarda-Roupa, o trailer é um primor e eu até fico emocionado ao vê-lo), ou seja, altas expectativas em torno da nova produção de um dos melhores diretores da atualidade. Todas cumpridas a partir do momento em que ele criou uma história real de fantasia, colocando clichês mas envolvendo-os num grau de bizarrice e contra pontos a esses clichês que a história ganha uma nova dimensão de se contar uma fábula. A Fantástica Fábrica de Chocolate não é um filme infantil, sua abordagem é muito mais complexa mesmo tendo um enredo com tal apelo. Cópias dubladas e censura livre é algo absurdo, visto que (dizem que)Quarteto Fantástico é um filme bem infantil e está com censura de 10 anos (algo novo para mim, sempre pensei que a censura era a partir dos 12 anos); Burton filmou fábulas anteriormente, com um estilo de abordagem bem similar e longe de serem infantis: Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande.

Tim Burton reinventou o cinema com sua estética, os filmes dele não são apenas conteúdo ou tem este como centro de suas produções, o estético vale muito, um visual inovador, diferente, estranho, e extravagante. Peguem qualquer filme dele, qualquer um e me digam se o visual não chama muito a atenção, ainda mais nas obras mais obscuras dele. Até mesmo a animação que roteirizou (e fez dela o que é) contém toda aquela atmosfera bizarra presente em outros filmes dele. Burton é um grande contador de fábulas, mas não fábulas feitas para qualquer criança (ou só para elas), as fábulas dele possuem moral, como qualquer outra fábula, mas sua profundidade existe, e faz com que as pessoas reflitam e pensem (diferente das fábulas tradicionais que entregam tudo ao final, fazendo com que a pirralhada não exerça raciocínio).

Especulou-se muito sobre a personagem de Johnny Depp, Willy Wonka, ter muito de Michael Jackson. O pai de ambos teria traumatizado-os a ponto de torná-los seres excêntricos e lunáticos, causando diversos problemas em suas fases adultas. Discordo. E muito. Não creio que este incremento no roteiro venha de uma influência causada pela overdose de Jackson na mídia, e sim, pela própria história de Burton. Este sempre teve problemas com o pai, com quem deixou de falar a partir dos 12 anos de idade. Isto foi muito comentado com o lançamento de Peixe Grandes e suas Histórias Maravilhosas e o falecimento de seu pai. Já é recorrente em sua filmografia a presença de um pai, alguém que esteve lá em algum momento de sua vida, mas que dela saiu rapidamente.

Evidências:

1 - Edward Mãos de Tesoura - O suposto pai do Edward, seu criador, deixou um trabalho não terminado, sua morte causa o isolamento de uma criatura com tesouras no lugar de mão que seriam substituidas. Seu criador pretendia fazer dele homem, como todos os outros, mesmo tendo sido confeccionado. A morte dele, devido a velhice, deixou um aberto no coração de Edward, e este se tornou um ser recluso, incapaz de discernir o certo do errado.

2 - Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas - Will Bloom detestava as mentiras de seu pai, Ed Bloom. Isso fez com que se afastassem. Will não conseguia acreditar nas histórias fantasiosas e, por que não, maravilhosas. Com isto em mente, Will tornou-se órfão de pai, sempre querendo distância do simpático velho carente. Tal prepotência do pai tornou Will em alguém amargo e contra a fantasia, crendo sempre me apenas fatos. E é apenas na morte de Ed que Will se dá conta da importância de seu pai na sua vida, independendo das características. Ele se arrepende e quer a redenção. Quer a aproximação do pai para aquilo que se torne eterno.

3 - A Fantástica Fábrica de Chocolates - Willy é filho de um dentista obsecado com uma arcada dentária perfeita para seu filho, proibindo-o de comer doces de qualquer tipo. Ao experimentar o doce gosto do chocolate, Willy sai de casa, falando que se tornará um grande chocolateiro. Seu pai desaprova e fala que se sair de casa, não deve mais retornar. Willy então se torna alguém com aversão a família, pois esta não o compreendeu e deu-lhe as costas num período influente de sua vida. A infância para Willy fora traumatizante, sempre lembrando dela com asco e indiferença. Porém ao ver que Charlie jamais largaria a família pelo monopólio daquela belíssima fábrica. Charlie então o leva a rever seu pai, e consegue mais uma chance e uma redenção possível.

Eu vejo nisso uma espécie de evolução. Primeiro - em Edward - Burton vê seu pai como uma figura de abandono, não o preparando direito para uma vida adulta, como alguém que sumiu do nada sem terminar o que deveria. Depois em Peixe Grande, com seu pai já beirando a morte vêm o sentimento de culpa talvez, querendo uma redenção naqueles momentos finais de uma vida tão difícil e traumatizante. Em A Fantástica Fábrica de Chocolates, Burton já vai pelo fantástico e tenta criar algo que ele não teve em vida, a reconciliação com seu pai, a segunda chance. A redenção que não veio aparentemente, tenta neste longa ganhar forma, e até, talvez, homenagear sua figura paterna. E assim Burton junta o fictício e o real querendo mostrar como um não vive sem o outro, corraborando para um mutualismo entre o pessoal privado e o pessoal público.

Deixando de lado a inserção no roteiro do próprio Burton, o resto do filme já é um grande conhecido do público. Um excêntrico fabricante de chocolates que vive isolado na sua fábrica com seus Oompa-Loompas resolve fazer uma caça ao tesouro, distribuindo 5 convites dourados para visitarem sua fábrica. Um desses garotos é Charlie, um menino muito pobre, que sonha em conhecer Wonka e sua fantástica fábrica de chocolates. Tirando algumas mudanças efetivas no roteiro em relação a versão de 1971, a grande diferença encontra-se nas personalidades nas personagens e principalmente no estético. A versão de Burton é mais sombria, mais humana e mais psicótica.

Johnny Depp, mesmo com aquela escorregada em Em Busca da Terra do Nunca, numa atuação correta, ele volta em sua melhor forma como Willy Wonka. Suas gags são geniais, e mostra mais uma vez sua versatilidade. Agora ele faz o papel do bizarro, do perturbado, extremamente irônico e cínido e extremamente hilário. É impagável quando ele vai entrar no elevador de vidro e dá de cara com a porta. E melhor ainda é a cara que ele faz depois. Depp sempre foi um dos meus atores preferidos da atualidade, e com esse filme ele entra para o hall dos meus atores preferidos de todos os tempo. A psicose da personagem encontra-se na primeira cena dele, quando começa a música e os bonecos a derreterem, e Wonka achando tudo lindo e engraçado. Brilhante atuação. E novamente critico Freddie Highmore. O garoto está londe de ser excepicional, é um bom ator, como muitos outros garotos na atualidade. Ele está se tornando a versão masculina da Dakota Fanning. Querem garotos que são ótimos atores? Fiquem com Alexander Nathan Etel e Lewis Owen McGibbon, os protagonistas de Caiu do Céu. Esses sim vão despontar como astros, ao menos deveriam. David Kelly é um velho muito simpático, daqueles que dá vontade de ter um. Ele como avô de Charlie é muito carismático e desconcertante. Ganha em todas as cenas de Highmore com sua amabilidade.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi os cartazes. Cada garoto ganhava um, com uma frase: Charlie - "Is Lucky to be there" (Tem sorte de estar lá); Mike - "Thinks candy is waste of time" (Pensa que doces é uma perda de tempo); Veruca - "Is a very bad nut" (É uma noz estragada); Violet - "Keeps her eyes on the prize" (Mantém seus olhos no prêmio); Augustus - "Is what he eats" (É o que come). Willy Wonka também ganhou o seu, "Is Semi-sweet and nuts" (É amargo com nozes), assim como os Oompa Loompas, "Are crazy for cocoa beans" (São loucos por cacau). Cada frase resumia cada personagem de acordo com a fábrica. O interessante é ver que cada criança assim é pela derivação dos pais, são genéricos. Charlie, o garoto pobre, que ganha por sorte o último convite. Um menino humilde que dá muito valor a família, assim como os próprios. Mike é um viciado em TV que quebra o código de Wonka, e nem gosta de doces, só queria estar lá. Veruca é uma menina mimada que consegue tudo o que quer do pai ordenando. Este obedece à sua filha transformando-a num monstro egoísta. Violet só quer vencer a todo custo, é a personificação bem sucedida da mãe que nunca ganhou nada e deposita em sua filha toda sua desilusão. Violet só quer ganhar o prêmio. Augustus é um guloso, assim como sua mãe, só pensam em comida e ele faz de tudo para experimentar cada vez mais doces e chocolates. Todos tem sua fraqueza (exceto Charlie, a não ser que afeição e apresso pela família possa ser considerado tal), e Wonka sabe disso e quer eliminá-los, tendo um verdadeiro herdeiro de seu império. E por serem frutos de uma família que os tranformaram no que são que talvez Wonka tenha tamanho repúdio por elas.

Creio que um dos maiores apressos da obra é a inigualável homenagem a Stanley Kubrick e seu fenomenal 2001: Uma Odisséia no Espaço. Entramos na sala de TV da fábrica, óculos especiais são obrigatórios caso queiramos continuar enxergando. Tem um Oompa-Loompa assisitndo televisão, está vendo 2001, a maravilhosa cena dos primatas, mexendo na ossada. Toca a trilha sonora, famosa pela cena da nave se movendo. Wonka quer demonstrar sua experiência, dissolver uma barra de chocolates Wonka em parítculas e transmití-la na TV, para que possamos assistir TV e comer uma deliciosa barra de chocolate Wonka, é fácil, é só pegá-la dentro do televisor. Um porém, a barra tem de ser enorme, pois é como na vida real, as pessoas ficam pequeninas no aparelho, com o chocolate ocorre o mesmo. Uma barra de chocolate Wonka gigante aparece, ela caminha para o local da desintegração, recomeça a trilha de 2001, ela vai subindo em câmera lenta, foca-se no rosto de Wonka, na barra, em Wonka, na barra, em Wonka, na barra, em Wonka, tudo em câmera lenta, tocando a trilha sonora. O ápice da música chega, e assim a barra desaparece. Olhamos a TV e ela tomou o lugar da pedra preta na cena dos macacos. E assim, Burton realiza uma das mais bonitas homenagens feitas a um diretor e ao cinema em si. Pois 2001 é um marco do cinema, da arte e da complexidade das coisas. A referência é explicíta e linda, reverente e magnânima. Fiquei até emocionado e com vontade conferir novamente o clássico de Kubrick. Tudo está em sicronia com o movimento da nave em 2001, e com o intuito dos primatas ao remexerem nos ossos. A tentativa de descoberta. Isso prova como cinema de qualidade sempre ficará gravado na história. Burton homenageando Kubrick é esplendoroso.

Eu juro que gostaria de trabalhar na equipe técnica do Tim Burton, poder estar ao redor de tudo aquilo, daqueles figurinos maravilhosos, cenários fantásticos, de todo aquele universo criado. A equipe técnica dele é maravilhosa, não tem mais como descrever tudo isso. Só vendo mesmo. Toda a essência do cinema de Burton está nas qualidades técnicas, todo o clima, de tão genial que é.

A Fantástica Fábrica de Chocolates é um dos melhores exemplos do cinema de um dos mais aclamados diretores da atualidade, Tim Burton. O estético arrebatador, a fábula soturna, a retrocesso e análise de um ser humano em suas falhas e problemas e um divertido exemplo de como não levar as coisas tão a sério. A meu ver, fica apenas atrás de Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas.

Nota: 89/100

Escutando: CD (The Velvet Underground - The Velvet Underground); Música (Sing - Travis)

A Descobrir

Meu Filho é Meu Rival (Come and Get It, 36) - Começou com Howard Hawks e terminou com William Wyler, dois dos maiores mestres do cinema. Não filmaram juntos mas fizeram parte da obra, e uma belíssima obra. Um dos poucos filmes com o destaque Edward Arnold merece. A história de alguém que quer subir na vida, mas que tem de fazer sacrifícios, incluindo esquecer do amor da sua vida, mas isso o volta a peseguir 20 anos depois. O final é duro, realista e
poético. Não se pode ter tudo o que se quer afinal. [88]

Postado originalmente em 30/07/2005 e 02/08/2005.

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