30 janeiro 2006

Especial: Walter Hugo Khouri

O principal diretor e roteirista paulista foi Walter Hugo Khouri. Khouri nasceu em São Paulo no dia 21 de outubro de 1929, quando o cinema ainda era uma novidade. Começou trabalhando na TV Record, foi jornalista, crítico e teve sua primeira chance no cinema em 1952, sendo assistente de produção de O Cangaceiro na Vera Cruz. No ano seguinte conseguiu fazer seu primeiro filme em condições semi-amadoras, O Gigante da Pedra.

A partir daí, Khouri não largou mais a direção, sendo considerado o Ingmar Bergman brasileiro. Em seus filmes tratava de assuntos peculiares e até mesmo eróticos, focando sempre a mulher. Os papéis masculinos, sempre secundários, apenas servia como ótica em relação as protagonistas, e curiosamente sempre se chamavam Marcelo, porém seus filmes não eram comerciais e sim pessoais. Entre esses se destacam Na Garganta do Diabo (1959), que inclusive ganhou o Festival de Mar del Plata; Noite Vazia (1964), considerada sua obra prima sendo grande sucesso de bilheteria que chega a concorrer em Cannes, que foi tragicamente perseguido e interditado pela censura; Corpo Ardente (1965); Convite ao Prazer (1980); Eros, o Deus do Amor (1981); Amor , Estranho Amor (1982) - este filme lançou Xuxa Meneghel na mídia, e por possuir cenas eróticas envolvendo a apresentadora, ela conseguiu a interdição deste filme – que é considerado um dos filmes mais maduros e sensíveis; e mesmo em seu último filme (e assim como em todos outros), Paixão Perdida (1998) foi enigmático e coerente com as preocupações temáticas e formais.

Walter Hugo tem fama também pelo fato de ter trabalhado com diversas beldades como Lilian Lemmertz, Vera Fischer, Adriana Prieto e Ana Paula Arósio. Khouri foi um grande cineasta reconhecido inclusive internacionalmente pelo próprio Bergman. No brasil foi reconhecido publicamente por Glauber Rocha. Mesmo obtendo críticas negativas na época da ditadura pela temática de seus filmes, ele é muito agraciado pelo mais famoso crítico brasileiro de cinema, Rubens Ewald Filho, “um dos maiores cineastas brasileiros, um dos pouquíssimos que tiveram carreira longa, consistente, autoral, com um mínimo de concessões.”, como também foi convidado pelo próprio diretor a fazer uma pequena ponta em Amor, Estranho Amor, Ewald disse “pude observar Walter dirigindo, improvisando o roteiro, controlando as tomadas na cabeça, trabalhando com rapidez e eficiência. E sempre tratando com carinho e afeição suas estrelas da ocasião.”

Khouri, um dos mais dedicados criadores do cinema brasileiro, realizou 24 longas no total de meio século de carreira. Walter faleceu no dia 27 de junho de 2003, faltando quatro meses para
completar 74 anos, vítima de infarto.

A biografia de sua obra encontra-se no livro O Equilíbrio das Estrelas: Filosofias e Imagens no cinema de Walter Hugo Khouri, de Renato Luiz Pucci Júnior.

De seus filmes só pude conferir dois:

Noite Vazia (1964)

Um dos filmes mais intimistas que já vi, super profundo. Uma verdadeira aula de direção, você percebe como se faz filmes verdadeiramente artísticos. O que sinto é que Khouri não explorou melhor os diálogos, porque as imagens são belíssimas. O filme é extremamente melancólico e depressivo, as imagens chegam a ser perturbadoras. Gabriele Tinti, como Nelson, está fantástico. Ele rouba quase todas as cenas em que aparece e nunca vi um olhar conter tanta melancolia em minha vida, como neste filme. O que mais me chamou atenção no filme, foi o fato de Khouri conseguir fazer uma cena, que dura três minutos, de um cara olhando uma revista - e somente isso - tão dinâmica. O roteiro é maravilhoso, a direção esplêndida e as atuações, no mínimo, notórias. Ah, sem me esquecer, eis a sinopse: Dois amigos contratam os serviços de uma
dupla de prostitutas. O que seria uma noite de prazer acaba se transformando em um embate entre os quatro, revelando pouco a pouco suas angústias e ressentimentos e aflorando seus sentimentos mais íntimos e profundos. [87]

O Corpo Ardente (1966)

Em relação ao Noite Vazia, este filme é bem mais fraco, mas mesmo assim contém muita qualidade. Eis de novo o que me desagrada, os diálogos são novamente mal-explorados. Valendo exclusivamente pelas belíssimas cenas. A história me pareceu um pouco perdida, já que não entendi a lógica da história secundária. E acho que a história só existe como desculpa para as cenas. Todas as cenas com o cavalo são maravilhosas, dificilmente se vê cenas como tais. Sinopse: Mulher descobre-se traída pelo marido e procura outro homem como forma de se vingar. Mas o triângulo não resolve suas insatisfações. [62]

Escutando: CD (Ok Computer - Radiohead); Música (If - Bread)

Postado originalmente em 23/10/04.

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