30 janeiro 2006

Doutores da Alegria

Doutores da Alegria (Idem, 05)

Quem nunca ouviu falar dos simpáticos palhaços que, voluntariamente, visitam hospitais em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife? Dificilmente alguém não sabe quem são os Doutores da Alegria, palhaços que se passam por doutores espalhando alegria e sorrisos entre crianças doentes ou terminais. Mesmo assim, isso não significa que sabemos exatamanete o que fazem, qual é a arte por trás daquele grupo de atores devotos a um ideal. E esse é o objetivo do filme: mostrar como é a rotina daquelas pessoas e o porquê de fazerem-no.

O filme é um dos melhores exemplares do cinema nacional dos últimos anos. Um filme sensível e agradável, que em sua crendice ingênua contamina o espectador. É sutil e bonito o que fazem, e ver esse filme me fez querer ser um doutor da alegria, fazer trabalho voluntário, algo que sempre excluí todas as possibilidades. É um ato nobre digno de reconhecimento. É pazeroso assisti-los, fazendo suas palhaçadas e patetices, sendo impossível não abrir um sorriso nos primeiros minutos da projeção e não mantê-lo até o final. Eles são os únicos palhaços assumidos, desses que pintam a cara, que realmente me fazem rir. Eles são engraçados, e em suas cenas evocam gênios como Chaplin, O Gordo e o Magro, e esses grande comediantes, como eles mesmo citaram.

Mara Mourão é uma pessoa a quem não consigo entender. Faz Avassaladoras - péssimo, péssimo -, um filme repleto de clichês e de péssimos atores com uma das tramas mais estapafúrdias do cinema nacional, e depois faz Doutores da Alegria, uma incursão completamente diferente na sua filmografia, mostrando-se competente e capaz de saber diferenciar um projeto bom de um ruim. Como alguém faz algo tão belo, tão meigo e faz Avassaladoras? Eu vejo uma grande contradição nisso. Não vejo sincronia.

O Brasil retratado na película é digno de um futuro esperançoso e próspero, é um filme que me deixou esperançoso e me fez acreditar um pouco na humanidade. Existem pessoas boas no mundo, que visam o bem do próximo e que são felizes, que se sentem bem em fornecer sorrisos. A filosofia deles é inspiradora. Segundo eles há duas saúdes que se completam, a física e a mental. Enquanto os médicos tratam da física e só procuram isso no paciente, os Doutores da Alegria fazem a parte que os médicos muitas vezes esquecem, a mental. É necessário que ambas estejam em equilíbrio, é preciso persistência, pois se o paciente já se sente derrotado pela doença, nem adianta tentar salvá-lo. Por mais utópico que possa parecer - e falando-se, é praticamente isso que se pode inferir -, isso se mostra funcionar. As crianças se divertem e esquecem por um instante de suas condições, os familiares descontraem e os próprios "doutores" aprendem cada vez mais e mais.

Segundo Wellington Nogueira, o criador e difusor dos Doutores da Alegria no Brasil, durante toda a história, desde que o homem anda em bando teve sempre um palhaço, aquela que por natureza gostava de ser engraçado. Fazendo um passeio pela história, temos os exemplos dos clowns do Shakespeare, dos bobos da corte, dos palhaços de circo, de astros do cinema mundial - Chaplin, Gordo e o Magro, Keaton - e de astros da TV brasileira, entre outros. E é isso que faria as pessoas confiarem nos palhaços e muitas vezes idolatrá-los.

Por trás daqueles narizes vermelhos há uma luta interna muito forte. É demasiadamente triste ver uma criança em tais estado, e reconfortante ver que podem fazer certa diferença. Por isso a porta é essencial, é por ela que logo no primeiro contato percebe-se o espírito da criança, e que brincadeiras se fazer. Dizem que o mais triste é quando a criança não quer a presença deles, já que assim nada podem fazer. Sentem-se inúteis.

Como visitam regularmente os hospitais acabam encontrando as crianças, e essas nunca se esquecem dos palhaços. É inexplicável a psique de uma criança e funciona de maneiras estranhíssimas, são dotadas de uma tremenda ingenuidade e inocência. Não quero estragar mais do que já estraguei do filme, mas há casos interessantíssimos. São relatos fiéis, que colocam a criança nesse quadro. A imaginação delas é esplêndida. Todas as histórias são preciosas, todas as palhaçadas são engraçadas. Os Doutores da Alegria tornaram-se modelos, modelos que todos deveríamos seguir. Só sendo dotado de tal amneira para fazer uma criança gargalhar de tal maneira. O garotinho que entra na brincadeira e começa a dançar é de arrepiar, tamanho o lirismo que se pode encontrar ali. É brutal uma cena dessa para nossa sociedade mesquinha e hipócrita. Por isso repito, há bondade nas pessoas e esse cena demonstra isso.

Tenho que destacar a brilhante edição do filme, captando exatamente o clima dos Doutores da Alegrias. As imagens no circo são fantásticas. E a trilha sonora inspirada em Nino Rota é um dos destaques do ano. É o primeiro documentário aquém que vejo que realmente é significativo. Seria injusto não assistir esse filme, já que atualmente, são coisas assim que nos fazem refletir, e não visando nosso próprio bem.

Nota: 82/100

Escutando: CD (Riot on an Empty Street - Kings of Convenience); Música (English Tea - Paul McCartney)

A Descobrir

Meu Adorável Vagabundo (Meet John Doe, 41) - Eu já falei que sou fã de Frank Capra? Ele é um cara genial, seu espírito esperançoso é belíssimo, seus filmes são belíssimos. A cada dia que passa ele sobe no meu conceito, e daqui a pouco se encontrará no meu top 3 diretores. O filme narra a história de uma farsa, na qual têm-se que contratar um homem para viver John Doe, o escritor de uma carta falsa dizendo que vai se suicidar. John Doe cai nas graças do povo e vira um herói. Capra é um gênio - já falei isso? [93]

Postado originalmente em 04/10/2005

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