30 janeiro 2006

2046

2046 (2046, 04)

Fui assistir a 2046 com receio, assistir pelas críticas positivas. Temia o resultado desse filme, pois seu anterior, Amor à Flor da Pele, causou-me tanto desgosto e amargura, que assim que visto pulou para primeiro na minha lista de piores filmes já vistos. Certo, vi quando estreou no cinema, há uns 4 anos atrás. Provavelmente, tendo os 12/13 anos que tinha, faltou-me maturidade suficiente para entender. Ou não. Só sei que minha opinião sobre seu diretor, Wong Kar-Wai, mudou completamente. 2046 é um filme fabuloso, é um quarto, é um estado de espírito. 2046, para a personagem, é a representação de sua vida, da mudança e da permanência. É um número que se liga às memórias dele, criando ilusões, mitos e transformações.

Infelizmente, Wong Kar-Wai só se apresentou à minha vida de fato há 16 dias atrás. Pode-se até inferir que seja megalomaníaco, e que suas criações bizarras, a partir de temas cotidianos e de uma filmagem simplista, extravasem a proposta inicial de se criar uma história de amor e desilusões relacionadas a este. O bizarro não é o mesmo de Cronenberg ou Lynch, ou mesmo Tarantino, é bizarro pelo distanciamento da realidade, e pela maneira que se resolvem os problemas. A bizarrice está justamente na criação dos mitos, associada à maneira que se conta a narrativa.

O escritor Chow Mo-Wan, agora em Hong Kong, tenta-se recuperar do (e esquecer) seu último caso, aquele com a vizinha - mostrado em Amor à Flor da Pele. Os desgostos são escondidos, evidenciando sua faceta conquistadora e "mulherenga", aproveitando-se das mulheres a sua volta, frequentadoras do quarto 2047. Tais relacionamentos, junto com sua trágica história em Cingapura com a vizinha, são a base da história, intitulada 2046, criada pelo escritor. Um trem que viaja sem rumo, e pessoas que o pegam visando a um passado perdido.

O filme é poesia, uma quase que Romântica, se não fossem as demasiadas mulheres. O saudosismo está presente, assim como a idealização. O vício, o tom depressivo, a morte eminente, os fardos do amor, o senso nostálgico... É impressionante como um filmes desses pode ser perigoso a uma alma descrente ou desesperançosa. A metáfora que se criara em torno da questão do ser humano X amor é a tradução de nossa ignorância. O trem que percorre sem rumo, onde não há volta - ao menos não conhecida -, um abismo, mitificando o passando e criando ilusões tão depressivas quanto aquele próprio.

2046 - cujo horrível subtítulo dado recentemente aqui no Brasil eu me recuso a escrever; bom, de qualquer forma, só por curiosidade, é 'Os Segredos do Amor' - é um filme de emoções, e sabedoria. Tendo sua interpretação variadíssima, tal que cada indivíduo que assisti-lo achará algo de acordo com os sentimentos que o filmes transpassará. Pessoas acharão o filme arrastado e lerdo - arrastado nunca, lerdo em alguns trechos -, "bonitinho mas ordinário", muito bom - principalmente pelo estético criado; a maneira de Wong Kar-Wai narrar é realmente fantástica -, ou fantástico, uma quase obra-prima se não uma.

Os atores são fantásticos, tirando a Zhang Ziyi, eu não sei o nome de nenhum deles, mas mesmo assim não posso deixar de assinalar isso com um pequeno parágrafo. Todos eles são fabulosos: o escritor, a mulher de luvas negras, o dono da pousada. Com grande destaque para o escritor.

Um outro aspecto que queria ressaltar é a fotografia excepcional. Uma coloração diferente, que me remete muito ao aspecto de antigo, meio amarelada. A trilha sonora também é muito boa. O caráter oriental desmistificador universaliza a angústia da personagem magnificamente.

2046 me fez refletir: preciso urgentemente rever Amor à Flor da Pele e "O mytho é o nada que é tudo./ O mesmo sol que abre os céus/ É um mytho brilhante e mudo -/ O corpo morto de Deus./ Vivo e desnudo" (Fernando Pessoa).

Nota: 95/100

Escutando: CD (This Is Where I Came In - The Bee Gees); Música (Space Dementia - Muse)

A Descobrir

Mundo Cão (Ghost World, 00)
- É fantástico saber que o jeito de assistir esse filme é tendo telecine. Pergunto-me como tal raridade cinematográfica nunca chegou aos cinemas de nossa terra. Aclamado pela crítica, o filme que conta com as melhores atuações das carreiras de Steve Buscemi e Thora Birch, e ainda é a revelação da hoje queridinha Scarlett Johansonn. Um filme para qual sempre tive curiosidade, porém foi num passagem de canais que vi a oportunidade que teria. O relacionamento de uma garota revoltada e um esquisitão de meia idade é fantasticamente retratado nesse filme. [81]

Postado originalmente em 17/11/2005.

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